(No ano de 2022 teve um concurso de contos que propunha que os autores criassem algo baseado numa das diversas fake news idiotas propagadas durante a pandemia. Eu escolhi falar sobre a invenção do vírus na China. Não ganhei, fiquei preocupado que algum dos avaliadores possa ter achado que era um texto sinofóbico, mas era apenas um texto falando sobre várias das mentiras e que acontecem dentro da China.)

Fake news: A invenção do Vírus na China

Em um local secreto na Região de Wuhan, China, 2019

A sala escurecida pela falta de janelas para o mundo exterior estava fracamente iluminada por um largo círculo de velas, todas bem altas e vermelhas, no centro da grande sala. Acima das pequenas chamas um pêndulo de metal, inerte, de uma foice um martelo, refletia discretamente o bruxulear das chamas. Apesar do silêncio todos sabiam que a sala estava abarrotada de pessoas e de segredos. Metade dos presentes tinham farda militar e carregava medalhas dos tempos da Revolução Cultural. A outra metade tinha jalecos brancos e certificações científicas dos mais altos níveis, muitas delas conquistadas em universidades importantes do mundo todo com o compromisso de retornar a grande pátria. Uma sala cheia de pessoas muito importantes, todas em silêncio à espera de algo muito maior que todos elas.

Uma porta abriu, trazendo um rasgo de luz de fora, num corredor perfeito que levava até o centro do círculo. Um homem do Partido entrou caminhando a passos certeiros até o centro da sala e o silêncio só era quebrado pelo som do seu sapato ecoando pelo espaço. Quando ele parou, no centro do círculo, a porta se fechou.

– Cavalheiros!… e algumas mulheres. Por razões ultra secretas, queremos cometer a maior atrocidade do século XXI. Algo fatal, terrível e perigoso, até para nós mesmos. E isso é um segredo, do mais alto escalão. Se você concorda em participar: fique em pé.

No silêncio e no eco da grande sala dava para ouvir o barulho de roupas, medalhas tilintando, canetas mexendo nos bolsos. O homem no centro acreditou que todos se levantaram, até porque ele não teria como saber, estava muito escuro. Talvez ele devesse ter pedido por um som, um “viva”, sei lá, mas tinha aprendido algo naquela reunião secreta: sem votos visuais em reuniões em salas escuras. A porta se abriu e ele saiu de lá, com o seu aprendizado. A porta se fechou.

Silêncio.

Um longo silêncio.

Que foi quebrado, depois de um tempo por um:

– …oi.

Todos se viraram na direção da voz. Era Jiaying, em seu jaleco tão impecavelmente branco que quase parecia refletir as velas do centro da sala. Recomposto do susto de ter a atenção de todos aqueles homens (e algumas mulheres), ele engoliu em seco e disse.

– Alguém poderia acender a luz pra gente voltar pro laboratório?

*

De volta ao seu laboratório o chefe de Jiaying, Dr. Wang, o repreendeu:

– Como é que eu soube, imediatamente, que a pessoa passando vergonha na reunião era você, Jiaying?

– Talvez porque o senhor tenha um excelente ouvido, Dr. Wang. Eu já o ouvi cantando, o senhor é muito afinado e…

– Cale-se!

Trabalhar num local secreto financiado pelo governo não era exatamente o sonho do jovem Jiaying. Em sua juventude, em Shenzhen, lia muitos gibis antigos da Marvel – um pequeno contrabando de um amigo que tinha vivido em Hong Kong – e se imaginava como um Reed Richards, um Bruce Banner, ou um Tony Stark, criando coisas fantásticas todos os dias para salvar o planeta das ameaças vindas do espaço. Também ajudou que, no início dos anos 2000, trabalhar com ciência e tecnologia parecia uma chance mais palpável de ascensão social dentro de seu país.

Sua especialização o levou para a biologia, onde sempre teve problemas. Foi contratado por uma indústria de cosméticos e, durante todo o período, lutou nos limites do possível para que crueldades com animais parassem de ser cometidas. Depois foi para o ramo alimentício, onde se rebelou contra a crueldade cometida pelos criadores. Apesar do histórico de repreensões e quase prisões, sua participação nas equipes em que trabalhou sempre trazia benefícios financeiros e saídas criativas para problemas que muitos achavam insolucionáveis. Ele foi convidado pelo Dr. Wang dois anos antes e prometeu:

– O senhor não vai se arrepender!

Dois anos depois:

– Toda semana eu me arrependo por contratar você, Jiaying!

– Foi a última vergonha, juro.

O Dr. Wang tomou fôlego, parou e anunciou à equipe:

– Cavalheiros – e algumas mulheres. Se nós não apresentarmos um plano de ação claro, nas próximas horas, nosso laboratório não vai participar deste projeto secreto.

– Mas por que não, Dr. Wang?

– Eles preferem investir em bombas e outras armas, que têm função mais clara. Talvez nós voltemos para… Pesquisas menos secretas.

Todos ficaram visivelmente decepcionados. Que graça tinha estar numa base secreta e não desenvolver algo super secreto?

– Dr. Wang, não poderíamos criar algum tipo de arma química?

– Sim, poderíamos, mas teria que ser muito mais fatal do que as que já existem.

– Algo nuclear, talvez?

– Os militares já tem. Diversas. Espalhadas em vários cantos do mundo.

Todos olharam para o Dr. Wang com algum espanto.

– …vocês nunca ouviram isso de mim.

– Bem, quem sabe a gente poderia ter uma solução mais… natural.

Todos olharam pra Jiaying.

– Desculpe, eu falei alto? Estava pensando sozinho.

– Prossiga, Jiaying. O que você pensou?

– Bem… Um dos erros que se comete, na busca de novidades científicas, é não olhar para o básico. Talvez o que a gente precisa já exista, hoje, na natureza.

– Tipo… Venenos em plantas?

– Modificar geneticamente animais como armas?

– Descobrir uma maneira de matar todos os cães e gatos do mundo, para que pessoas solitárias pensem em suicídio?

As pessoas olharam para Dra. Cheng, por momento, com alguma preocupação.

– Não – disse Jiaying – estou pensando no uso de bactérias, vírus, que já existam na natureza.

– Jiaying, isso demoraria décadas. O Partido quer uma ideia palpável o mais breve possível.

– Pois é nisso que estou pensando! Se fizermos as pesquisas in loco, ou se tivermos que dissecar cada bicho, levaria muito tempo e seríamos cruéis com diversos animais. Mas… e se fizéssemos o contrário?

– Qual “contrário”? – perguntou Dr. Wang, num misto de curiosidade e futuro arrependimento.

– Ser extremamente carinhosos com eles.

– Extremamente… carinhosos?

– Extremamente!

Dr. Wang ficou boquiaberto ouvindo a proposta de Jiaying.

Ficou mais ainda quando ligou para o escritório central da base pedindo uma reunião para apresentar a ideia.

*

Uma pequena sala de reunião escura, com um pequeno círculo de velas vermelhas sobre o centro da mesa. Dr. Wang, Jiaying e outros integrantes do laboratório aguardavam a chegada do representante do Partido.

– O que essa gente tem contra iluminação?

– Cale-se, Jiaying!

A porta se abriu e um homem – o mesmo da grande reunião – entrou no silêncio, se posicionando na cabeceira da mesa.

– Senhores – e algumas mulheres. Qual é essa grande ideia, afinal?

Dr. Wang pigarreou e Jiaying entendeu que o som queria dizer “cale-se e deixe que só eu falo”.

– Nosso laboratório chegou à conclusão de que a melhor maneira de causar um estrago mundial seria através de um vírus, que fosse achado a curto prazo na natureza.

– Sim, é uma ideia velha. Teríamos que obrigar pessoas a consumir água ou comida contaminada. Pouco eficiente.

– Não se for por transmissão respiratória! – disse Jiaying, antes de ouvir um novo e longo pigarro.

– …Acho que seu jovem aprendiz ainda não aprendeu a traduzir os significados dos pigarros em reuniões, Dr. Wang.

– Perdão, senhor!

– Podemos dispensar formalidades, desde que vocês tenham algo letal e real para mim. Senão, é apenas uma perda do meu tempo e isso tem consequências.

O homem do Partido ficou olhando para Jiaying e ele não sabia se respondia ou se respeitava o pigarro de seu chefe. Então, o Dr. Wang finalmente deu uma breve tossida, que claramente significava “fale antes que você seja mandado pra frente de um pelotão de fuzilamento”, o que foi muito fácil de reconhecer, porque essa tossida Jiaying já tinha ouvido outras vezes.

– Senhor, nós pensamos em algo que fosse transmitido pelo contato entre humanos, facilitando a contaminação.

– Vocês já acharam algo parecido com isso?

– Ainda não senhor, mas sabemos que através de pesquisa de animais silvestres poderemos chegar a algo prontamente.

– Dr. Wang… – O homem do Partido finalmente tinha mudado a direção do olhar, mas o rosto de ameaça continuava o mesmo – Eu vim aqui para escutar algum projeto real ou apenas promessas vazias?

– Não, senhor! Há uma maneira rápida de descobrir possíveis vírus presentes em animais silvestres que possam migrar para humanos.

– Como?

– Senhor… É… Bem…

Jiaying falou, para tirar o Dr. Wang de sua miséria.

– Obrigando humanos a fazer sexo com eles!

O homem do Partido ficou boquiaberto e imóvel. Um pequeno silêncio se instalou. Todos estavam visivelmente constrangidos, exceto Jiaying, que pensava “só assim pra ser rápido”.

O representante do partido não tinha decidido se aquilo era real ou uma perigosa chacota.

– Explique-se, garoto!

– Bom – começou Jiaying, claramente alheio ao perigo que corria – Se colocarmos humanos em espaços isolados com bichos que ainda não foram plenamente estudados, a possibilidade de encontrar doenças ainda não descobertas é altíssima. Tanto vírus direto de animais quanto variações pelo contato. Temos um relato bastante contundente do professor Li, em seus estudos sobre o desmatamento da Amazônia, de que isso pode acontecer na América do Sul a qualquer instante. Nós aceleraríamos o processo, incentivando artificialmente o contato com diversas espécies de animais.

– Então, vocês querem dinheiro para transformar uma área extensa da nossa base em uma espécie de motel para zoofilia?!

– Bem… teriam que ser espaços hermeticamente fechados, para evitar que a base fosse contaminada com o novo vírus, mas… Sim.

O homem do Partido não mudava a sua expressão de ameaça de morte.

– O que me deixa mais irritado, de tudo isso…

Durante as reticências da frase, Dr. Wang se sentiu a meio passo do pelotão de fuzilamento.

– …É que essa não é a ideia mais estúpida que eu ouvi hoje! – e, neste momento, o homem do Partido sorriu.

Uma onda de alívio passou pelos cientistas e Jiaying não conteve o comentário.

– Nossa, qual será que foi a pior ideia que o senhor ouviu hoje?

Por coincidência, ao longe, todos ouviram cinco tiros disparados ao mesmo tempo.

– Vocês não vão querer saber – disse o homem do Partido – Mas o seu plano não demanda apenas os bichos, não é Wang?

Dr. Wang arregalou os olhos. Ele não tinha parado pra pensar que o experimento demandava cobaias humanas em alto risco.

– Senhor… Veja bem… Quem sabe temos patriotas que… Voluntários, para…

– Bom, Wang, fico feliz que você esteja se voluntariando para transar com morcegos!

O rosto do Dr. Wang perdeu um pouco de cor ao descobrir que poderia haver futuros piores que o pelotão de fuzilamento.

– Estou brincando, Wang! – o homem do Partido riu sozinho, então fez uma pausa e olhou de forma ameaçadora as pessoas na sala. Todos, de maneira nada espontânea, começaram a rir também.

– Fico feliz, senhor.

– Não se preocupe, vamos pra frente com o projeto “妈的世界”. E já temos os voluntários perfeitos para ele.

– Mesmo? Quem seriam, senhor?

– Nós vamos “convidar” uma série de uigures, Wang.

– Mas, senhor… isso não seria algo terrível?

– Bem, não foi a pior coisa que fizemos com eles, não é mesmo?

Ambos se olharam em silêncio, por um momento. O homem do Partido caiu na risada e só teve que abrir o canto do olho esquerdo para que todos fizessem o mesmo. Dr. Wang ria de verdade, pensando que não teria que transar com morcegos. Jiaying ria de histeria, pensando no que seria desencadeado com a sua ideia estúpida.

*

O projeto 妈的世界 começou com todos os investimentos possíveis. Pelos próximos meses foram feitas as construções de diversos quartos, com vedação hermética, para impedir a saída de qualquer tipo de vírus para dentro da base. Além da coleta de diversos animais silvestres das regiões próximas, o homem do Partido exigiu que bichos das Américas, Oceania e África também fossem trazidos para o laboratório.

– A MERS veio de camelos, né? Temos que aumentar nossas chances de achar esse vírus o mais rápido possível.

Enquanto isso, os cativos humanos estranhavam que em suas celas ficavam passando documentários sobre a fauna com uma espécie de jazz suave ao fundo, o tempo todo.

Quando as experiências finalmente começaram, os vários cientistas do laboratório biológico ficavam espalhados observando diferentes cobaias ao longo do dia. À noite, se juntavam para trazer relatos do dia:

– …E, na terceira tentativa de coito com a camela, o Voluntário 47, doravante chamado apenas de V47, recebeu um coice fatal que vai impedi-lo de tentar coito com qualquer outro bicho por um longo tempo. Amanhã teremos que reintroduzir – sem intenção de trocadilho – outro voluntário e devemos tomar ações restritivas das patas para colaborar com o processo.

– O V23 apresentou calafrios, tosse, cansaço, mal estar profundo. Pensamos que finalmente tínhamos um novo vírus em mãos, mas aparentemente ele só estava passando mal pela temperatura necessária para manter o pinguim saudável. Teremos que rever o habitat de inserção – sem intenção de trocadilho – para promover um momento positivo de zoofilia.

– Ótimo… E você, Jiaying?

– Nada de novo a relatar, senhor.

– Ok… Espero que achemos algo na próxima rodada de conexões. Lembrem-se: queremos um vírus aéreo, mas se acharmos algo fecal, nesse meio de caminho, pode ser uma excelente descoberta para termos mais tempo para as pesquisas. Esta reunião está encerrada. Todos – e algumas todas – estão dispensados. Menos você, Jiaying.

Todos cumprimentaram o Dr. Wang e saíram da mesa de reunião, deixando Jiaying estático em seu lugar, com a cara de criança culpada que já sabe o que aprontou.

– Em menos de um mês, vai entrar por aquela porta alguém com uma valise. Nessa valise podem ter duas coisas: uma condecoração para nós dois, por serviços prestados, ou sentenças de morte. Adivinha o que eu quero que tenha na valise?

– Eu não posso fazer nada se os meus voluntários não conseguem se excitar com os bichos que estou analisando. Nem todos ficaram com bichos sexys como golfinhos, que até eu…

– Jiaying! Respeite a minha inteligência. Um dos soldados da segurança disse que você começou a tirar fotos com flash para atrapalhar o seu voluntário, que estava seduzindo uma capivara brasileira!

– Achei que ele gostaria de relembrar deste momento, afinal sabe o que dizem das brasileiras, né?

– Chega, Jiaying! Se você não começar a colaborar com essa pesquisa, eu mesmo farei com que a sua valise chegue primeiro!

Em seus muitos momentos de rebeldia, Jiaying já havia escutado diversas ameaças vazias. Esta não era uma delas.

– Perdão, Dr. Wang! Amanhã mesmo eu terei novas observações a apresentar.

– Eu espero, pro seu bem, que você tenha bons resultados a relatar. E logo.

*

– Aqui é Jiaying, este é o relato em áudio, dia 48. Voluntário número 75, prestes a começar com mais uma sessão. Desta vez, usaremos um facocero, também conhecido como javali africano, que…

– Ei, moço!

Quem chamava Jiaying era o uigur, de dentro do quarto, com o rosto grudado no espelho. Os espaços de observação, que ficavam localizados atrás dos espelhos dos quartos herméticos, deveriam se manter no escuro, regra de segurança que Jiaying claramente tinha esquecido de aplicar.

– Desculpe, V75, mas eu não posso falar com você.

– Você não tá entendendo. Eu preciso…

– Sair daqui. Sim, eu ouvi bastante isso nos últimos meses. Desculpe, não dá, é uma questão nacional, blá-blá-blá, vai lá e se diverte com o facocero senão um dos guardas vem, aponta uma arma na sua nuca, blá-blá-blá… Você já sabe de tudo, V75.

– Sim, eu sei. Mas não é isso. Será que… Eu posso pedir pelo meu bicho?

– Oi?

– É que eu tive sonhos, ontem à noite. Sonhos… eróticos.

– E com o que você sonhou?

*

– Aqui é Jiaying, dia 48. O V75 está prestes a começar mais uma sessão. Desta vez, usaremos um pangolim, também conhecido como tamanduá escamoso. Não será necessário nenhum tipo de uso de ameaças, pois o próprio voluntário requisitou o animal desta sessão. É isso, nosso laboratório agora realiza experimentos científicos e fantasias da arca de Noé.

Encerrando a gravação já com desgosto, Jiaying era obrigado a observar a cena bizarra que aconteceria na sua frente. V75 sabia o que estava fazendo e requisitou formigas vivas. Ele colocava os pequenos seres na sua pele e o pangolim, com fome, lambia as formigas com sua pegajosa e longa língua. Um longo flerte estava acontecendo, para o desespero de Jiaying. Com todo o cuidado, V75 foi se aproximando do longo focinho do pangolim, em busca de outros tipos de contato íntimo. Nessa hora, o pangolim deu um pequeno espirro em sua cara.

– Aqui é Jiaying. Fora o ritual de acasalamento mais estúpido do mundo, registro que o pangolim espirrou no rosto do V75, dando a certeza de que a natureza tem alergia a nós – e ela têm razões pra isso.

*

– Aqui é Jiaying. Este é o relato, dia 49. Nada de anormal hoje. V75 estava indisposto, ele está em observação desde ontem depois da sua rave com o pangolim. V92, que parecia ter contraído alguma doença depois do seu coito com um canguru, aparentemente só teve um caso leve de vermes. V114 está bem, só que insuportavelmente não para de pedir para repetir a experiência com o golfinho.

*

– Aqui é Jiaying. Relato dia 50. V47 perdeu os dentes tentando, novamente, sem sucesso, algum tipo de intimidade com a camela. V75 estava visivelmente gripado hoje, a ponto de ser necessário verificar se ele passou algum tempo com o pinguim também. Ou seja: mais um dia normal.

*

– Aqui é Jiaying. Relato, dia 51. V75 nunca chegou perto do pinguim, até porque aparentemente o V23 é extremamente ciumento. Claramente ele não para de piorar. Eu levei o pangolim para exames e não detectei nenhum tipo de vírus ou bactéria própria dele, em primeira análise, mas descobri que o espécime teve contato com morcegos. Será que… Não!

*

– Aqui é Jiaying. Relato dia 52. V75 piorou. Muito. Tô muito feliz!… Não por causa da piora, mas porque talvez… Ah, vocês entenderam!

*

– Aqui é Jiaying. Relato áudio, dia 53… Achamos!

*

– Nunca duvidei de você, garoto!

Essas foram as palavras do Dr. Wang, enquanto ele abria uma champagne e servia todos os homens – e algumas mulheres – de seu laboratório. Quanto já estavam com seus copos cheios a mão, ele fez a pergunta importante:

– Devidamente esterilizados devido às experiências que estamos fazendo?

Todos disseram que sim e brindaram com alegria.

– É motivo de muito orgulho confirmar a morte do V75, que não foi por causas naturais. Isso só aconteceu graças a adaptabilidade de Jiaying, o gigolô de pangolim do nosso laboratório!

Várias risadas no ar, muita celebração e, no meio, um confuso Jiaying.

Ele tinha ficado completamente focado na busca da descoberta científica, na satisfação de fazer bem seu trabalho. Mas agora sua mente podia vagar e ele só pensava nas consequências. Talvez Oppenheimer também tenha sentido algo parecido na conclusão do projeto Manhattan. Pra piorar, ele percebeu que o V75 parecia muito com seu amigo de infância de Hong Kong.

A porta do laboratório se abriu. Dois soldados fortemente armados entraram, apagaram a luz e acenderam algumas velas em um círculo sobre a mesa. Logo depois entrou o homem do Partido.

– Cavalheiros – e algumas mulheres – estou sabendo já do sucesso do nosso projeto. Estamos orgulhosos dos resultados deste laboratório, Dr. Wang. Parabéns!

– Obrigado, senhor!

– Dr. Wang, quanto tempo até a dissecação do bicho e de um exame completo, para que possamos multiplicar isso em escala global?

– Se nós não tivéssemos este espécime específico em mãos, senhor, poderia levar anos. Mas, tendo ele, creio que em poucas semanas já teremos tudo pronto!

– Excelente! Atenda a minha curiosidade: o que é o tal vírus?

– Um tipo de SARS, senhor, só que muito mais eficiente.

– Vai ser brilhante! Antevejo coisas terríveis pelo mundo – ele ri, e abre o canto do olho, e todos riem com ele. – Dr. Wang, eu tive muito medo que essa maluquice fosse me levar para um pelotão de fuzilamento.

– Eu também, senhor. Eu também.

– Acho que nós dois temos muito que agradecer ao jovem que desencadeou essa maravilhosa ideia, não? Onde está o jovem Jiaying, para que ele possa receber os nossos cumprimentos?

Um silêncio curto se instalou no laboratório.

– Jiaying?… Jiaying?… Mas onde… Alguém pode acender a luz pra gente achar o Jiaying?

*

Com um casaco longo e preto, carregando uma pequena jaula coberta do seu lado, Jiaying tentava o mais rápido e discretamente possível chegar a uma das saídas secundárias da base secreta. Esta saída, especificamente, sempre tinha apenas um guarda que era simpático com Jiaying – ambos eram de Shenzhen. Se ele conseguisse sair da base levando o pangolim, provavelmente estaria adiando um cataclisma. Ele poderia ser um herói, era só passar por aquele único guarda que… Naquele dia, não era o de Shenzhen.

– Documentos.

– Aqui.

– O que é isso, na gaiola?

– Um dos bichos daqui… do experimento.

– Você está tentando sair da base com um dos bichos do projeto 妈的世界?

O guarda levou a mão ao coldre do revólver e o destravou. Jiaying sabia que o próximo movimento levaria a arma na direção de sua testa.

– Sim, é para… Uma tarefa de casa.

– Uma… O quê?

– Você sabe…

O jovem Jiaying nunca fora ator, mas fez o possível para que o guarda entendesse que ele estava encabulado de ser surpreendido com o bicho… por outras razões. O guarda o mediu, de cima a baixo, com uma cara de nojo e desaprovação. Ele travou novamente o coldre da arma e se aproximou de Jiaying.

– …Você consegue um horário pra mim com o golfinho?

*

– E então, soldado?

– O cidadão passou pelo portão secundário, há algum tempo, levando um bicho numa gaiola para fora da base, senhor.

– Bem, Wang, está muito claro que você contratou um traidor da pátria!

Ajoelhado no chão, com diversos hematomas e o nariz sangrando, Wang ainda não compreendia a reviravolta de sua vida. Ele pensou que se sagraria um herói nacional, mas agora seria apenas um corpo numa vala comum.

– Eu… realmente não sabia que…

– Não interessa! Alguém vai pagar por esta fuga.

– Posso pagar eu mesmo?

Os olhos de todos se voltaram para a porta, onde Jiaying se encontrava, esbaforido. Diversas armas apontaram para ele em uníssono e ele seria morto em 3, 2 e…

– Não atirem! Garoto, onde está o meu pangolim?

– Eu soltei no mato, onde só poderá gripar uns poucos pangolins como ele.

– Se isso for verdade eu…

– Vai me matar. Eu já imaginava.

– Não só isso, eu vou…

– Matar o Dr. Wang, eu já imaginava.

– Não só! Péra, deixa eu te ameaçar!

– Eu já sei, a minha família. Eu sei, eu sei. Então seremos dezenas de mortos. Não milhares, não milhões.

– Se o seu plano der certo.

– Vai dar certo, eu sei que vai… Não?

*

– Vó, peguei mais um!

– Ótimo, deixa eu ver!

O menino trouxe o pangolim, recém encontrado, para perto de sua vó e, todo orgulhoso, levantou o bichinho até a altura dos olhos da senhora. Quando o bicho encontrou com o olhar da anciã deu um pequeno espirro em sua direção.

– Ah, que nojo! Definitivamente, a natureza tem alergia da gente.

– Este também serve?

– Serve sim, coloca lá junto com os outros. Seu vô vai levar depois todos no mercado de Wuhan.

– Posso ir junto?

– Pode, pode sim.

O menino colocou o pangolim na gaiola junto com os outros. Em pouco tempo, tinham dois espirrando. Depois quatro. Logo, oito. Dezesseis. E, meses depois… nós todos.

*

O pelotão de fuzilamento estava perfeitamente perfilado. Jiaying amarrado num poste, com uma venda sobre os olhos, parecia sereno. Ao lado, dentro de uma pequena tenda escurecida e um círculo de velas, o homem do Partido observa tudo.

– Traidor Jiaying! Devido aos seus atos antipatrióticos você morrerá agora. Tem algo a dizer antes que a sentença de se cumpra?

– Sim!

– Então diga!

– Se… Mesmo com a minha interferência, esse vírus se espalhar, qual seria a maneira mais eficiente de entender por onde ele está passando?

Os soldados não entenderam, mas a frase fez com que o homem do Partido pulasse pra fora da tenda e arrancasse a venda dos olhos de Jiaying.

– Diga!

– Só com uma promessa.

– Qual?

– De que a vida do Dr. Wang seja poupada. Ele é inocente e não quero que se arrependa de me contratar.

– …Feito. Agora, diga.

– E… Se for possível colocar um microchip dentro de cada vacina, no mundo todo?

Os olhos do homem do Partido brilharam. O sonho da dominação 5G estava começando.