Foi semana passada. Acordei pelo ingrato alarme de celular, avisando que mais um dia frio começava. Fui desligar o barulho e fui fisgado pelas malditas artimanhas dos smartphones: tinham avisos, ali em cima, de atividades em redes sociais que eu ainda não tinha visualizado.

Malditos que sabem como prender a gente a esse looooping (isso, com quatro “ós”) eterno de procrastinação online.

Mas esse dia eu gostei, porque era um recado de uma amiga muito querida com quem eu não falava há anos.

“Bom dia. Megumi do Kendo”.

Sinto um puxão nas costas e, num piscar de olhos, sou levado para a rua Eurípedes Garcez do Nascimento, no bairro do Ahú em Curitiba, em que devo ter uns vinte e tantos anos e tem uma galera com roupas de kendo (arte marcial de espadas em se usa armadura) ao meu redor me cumprimentando. Olho para minhas mãos, que seguram uma shinai (espada de bambu), e elas tem vinte e quarenta anos ao mesmo tempo. Um paradoxo temporal se forma ao meu redor em que estou, ao mesmo tempo, segurando um celular e lendo um recado e segurando uma espada num tempo em que usava pager pra receber recados.

Tudo foi a meia-vida atrás e parece que foi ontem. Os treinos, o suor, as bolhas nas mãos, as broncas dos senpais, as broncas que dei quando era senpai, as muitas vezes que tive que explicar o termo japonês senpai para outras pessoas, etc. Era uma sensação muito boa, muito forte e, quase que imediatamente, muito triste.

Comecei a praticar Kendo em Curitiba depois que voltei do Japão, onde morei em 1994. Na época eu tinha 17 anos. Voltei ao Brasil, fui morar em Campinas -SP e, quando voltei pra Curitiba encontrei esse espaço para treinar kendo, de volta, depois de alguns anos. Era uma sensação muito boa de retorno ao lar, de estar de volta aos tempos de treinamento no Japão que foram muito importantes pra mim.

Quando comecei a treinar Oyama Sensei era já de idade, um dos fundadores do Kendo curitibano. Falava pouco, baixo, mas seu corpo dizia muito. Ele ficava feliz de conversar comigo por entender japonês, mas grande parte dos seus ensinamentos eram melhor traduzidos ou reforçados por Yamaguchi Hidemi Sensei, que era muito mais novo (talvez a idade que tenho hoje, talvez um pouco mais novo). Durante meus anos de treino Oyama Sensei infelizmente faleceu, mas todos nós tínhamos confiança na continuação da arte através de Hidemi (o nome para se usar quando acabava a aula). Yamaguchi Sensei era brilhante, nas suas explicações e na arte do Kendo, um exemplo a ser seguido e ele me dava muita saudades do meu professor de Kendo no Japão, que também era Yamaguchi.

Outro puxão nas costas e, desta vez, sou levado para um espaço de treinos há, mais ou menos, uma hora de Tóquio para o sul. Olho para as minhas mãos e, simultaneamente, elas tem dezessete, vinte e poucos, quarenta e três anos. Estou no Japão, estou no Ahú, estou no Água Verde. O professor Yamaguchi (do Japão) pede para eu parar de pensar tanto e fazer com que a espada “pense”. O professor Yamaguchi (do Brasil) pede para eu parar de pensar tanto e deixar o corpo reagir. Eu, em pleno 2019, olho para as minhas mãos e cobro delas que tenham aprendido algo através dos mestres que passaram pela minha vida.

Yamaguchi Sensei (do Brasil) infelizmente faleceu, problemas de saúde. Yamaguchi Sensei (do Japão) eu nunca mais consegui reencontrar, mesmo com redes sociais. Então, ao mesmo tempo em que revivi meus passados eles se dissolveram em saudades na minha frente.

Quando minha atenção voltou ao presente, conversei com minha amiga Megumi e combinamos de, assim que der certo, a gente vai se reencontrar. Afinal, existe algo poderoso em viajar ao passado acompanhado de alguém que esteve lá com você. Ou, de maneira ainda mais quântica, ainda está lá com você.

Espero que você possa realizar saltos temporais com frequência, para que você possa valorizar de onde você veio, onde você está e para onde se vai. Se puder ser com amigos carinhosos, melhor ainda. Se não puder ser, paciência: de certa forma, graças ao poder das nossas viagens temporais pessoais, todos sempre estarão com você.

Obrigado senseis. Vocês fazem falta, mesmo que estejam sempre comigo.