Como é estranho encontrar uma pessoa que não fala a mesma língua que você. Não estou falando de um estrangeiro que fica trocando os artigos com gênero do nosso idioma, chamando de "o porta" ou "a poste", porque – francamente – maluco foi o portuga que decidiu que portas eram moças e postes eram meninos.

 

Mas o causo aqui é diferente. São brasileiros, tão habituados com seus jargões de trabalho que não conseguem mais entender que os outros não estão a par de seus significados. Isso já aconteceu com você, né? Naquela maldita passada no banco (porque é lá que a população brasileira passa os almoços) quando você foi perguntar algo pra moça do caixa e ela disse: o prazo dessa IST já passou, portanto pega a GRF e leva na agência da conta. Tem gente que apóia essas atitudes e faz a maior cara de que entendeu, ou dá uma risada para se enturmar.

 

O meu caso foi semana passada, num fórum numa cidade próxima a Curitiba. Fui levar um pedido de divórcio da Gê, cujo nome completo é Gercina e trabalha na casa dos meus pais. A Gê não vive com o marido há muito tempo e precisou entrar com um pedido de divórcio este ano, por causa de umas papeladas. Reúne-se papel de tudo quanto é tipo, comprovação de vida, testemunhas, autentica lá, autentica aqui, auto-titica não sei mais o quê e você tem o dossiê divórcio pronto pra levar ao Fórum (valeu Zago pela ajuda).

 

Entrei no fórum e, para que a coisa comece bem, o alarme de metais apitou. O guarda me mediu de cima pra baixo, depois de um lado pro outro – porque não coube tudo no primeiro olhar – e falou que aquilo não era nada, devia ter sido o celular ou a chave. Isso foi muito ofensivo. Será que eu não poderia ter uma arma na minha bolsa de couro, masculinamente pendurada no meu ombro e cruzada sobre a minha camiseta vermelha? Deixe pra lá, já me impediram de entrar numa agência do Itaú, uma vez.

 

No primeiro guichê eu vi que, realmente, o inferno é um lugar onde a burocracia é infinita. Colunas de pastas empilhadas cheias de papéis assomavam-se pelas mesas, chão e ameaçavam apoiar o teto da sala. Uma mulher com os óculos na ponta do nariz, me mediu por cima da lente e fez um som de "humbflerbgh", o que eu interpretei como "boa tarde, em que posso ajudá-lo" ou "fala duma vez, seu monte de *&%$". Eu queria encaminhar um pedido de divórcio, por favor. Não, não é meu, mas estou com todos os papéis. Daí veio a primeira frase misteriosa do dia: O senhor já distribuiu?

 

…meu cérebro, em pane, não conseguia descobrir o que a moça, dos óculos pendurados ao pescoço por um colar de pérolas acrílicas, queria dizer. Algumas respostas passaram pela cabeça:

– Não, não quero distribuir nada, é pra manter isso em segredo, senão a Gê me mata!

– Dei uma cópia pra cada pessoa da rua. Porque? Não era pra ter distribuído?

– Já distribui, já coletei, já repassei, já organizei, já tenho experiência com isso tudo.

Ou talvez eu só tenha feito uma cara de bobo e dito: – Ahññ?

A moça, tirando o óculos do nariz e deixando-o pendurado sobre o pulôver creme, me olhou como quem olha para o milésimo idiota que não entende essa BRILHANTE explicação que ela dá e, com gosto, me falou: então o senhor entra na vara, no final do corredor.

 

…é claro que essa eu entendi. Vara de família, a gente já viu isso em filme de advogado, essa tava fácil. Mas e o número de piadas infames que inundam a sua cabeça nesse momento?

 

(continua…)