(continuação do texto que está neste link AQUI)

Por fim, deixei a vara passar – desculpa gente, mas uma piada infame passou pelos filtros do bom senso e correu aqui pro texto – e fui no guichê da Vara de Família. Um ambiente bem familiar mesmo, com crianças correndo de um lado pro outro. Parecia uma cena do Flautista de Hamelin, só que em vez milhares de ratos tinham milhares de papéis. As crianças eram todas estagiários, com seus uniformes característicos de calça desbravando a cueca, correntinhas nos bolsos, boné pra trás. Eles cercavam uma menina de óculos que parecia comandar a tropa. Da mesma idade, portanto não era uma coordenadora, mas uma representante de classe.

 

Ao meu lado várias pessoas, naquele bom humor de quem vai ao fórum para resolver problemas, e não para ver os estagiários aprendendo os verbetes do mundo burocrático. Um casal, que estava sem alguns dos documentos necessários e queriam saber se havia alguma maneira de contornar isso, pois vieram de Iberamberiberaberube do Sul, uma cidade cujo nome é maior que a população – tá no Guinness, vai lá ver. Um senhor que, pela vergonha de falar alto no guichê, devia ter feito algo bem feio. Mas o personagem que mais pegou na Vara – olha aí, outra das piadas infames escapou – foi a Country-Paty.

 

Uma senhora de 1,60m, uns 48 anos, bota de salto muito alto, calça colada com uma textura tigresa, jaquetinha aberta, corrente de elo largo dourado, baton além da boca, cabelos longos com franjinha marcada e – o melhor – unhas longas avermelhadas com detalhes brilhantes, tipo purpurina, dando um "elegante" destaque a figura. Essa pessoa chegou como um furacão, disse numa autoridade avassaladora "…e vamos com isso que ainda tenho que representar um outro cliente em Curitiba antes das quatro". Quatro dos ratinhos de Hamelin congelaram, um deles puxou a calça pra cima, e dois repetiam "sim, doutora, sim doutora" sem parar. Bom, o doutorado dela não era em moda, com certeza. A cereja do sorvete foi o celular da mulher, que começou a tocar Vitor e Leo e, ao ser sacado da bolsa, era rosa-vinil.

 

Minha vez. "O senhor já foi atendido?", disse-me um dos camundongos. Não, eu vim aqui por causa deste pedido de divórcio. Como se fosse uma piada combinada com a moça do primeiro guichê, ele me pergunta: O senhor já distribuiu? Tive vontade de mandar o pequeno roedor para Iberamberiberaberube do Sul. Mas sorri, e perguntei como fazer isso. Lá fui eu pro distribuidor.

 

O Distribuidor é aquele que distribui. Óbvio, né? Fui lá pra ser distribuído o que é, no real sentido da palavra dentro de um fórum, ver se tem algum problema nos seus documentos, pra você ser mandado de volta a esperar sentado na Vara – juro que esta foi a última! Cheguei e encontrei três pessoas sentadas, cada qual com o seu celular, focados em uma realidade paralela. Tossi, que é o código internacional para "será que alguém podia me atender?". Eles lentamente tiraram seus olhos do celular, se olharam com letargia, que é o código internacional para "quem foi pro sacrifício da última vez pode ficar sentado agora", ao que dois ficaram encarando o baixinho. Este mordeu a bochecha esquerda por dentro, deixou o celular do lado do computador e veio na minha direção, sorrindo.

 

"O que seria hoje, meu amigo?". É um pedido de divórcio. Tive um impulso de explicar que o divórcio não era meu, que não era casado, que na verdade os meus problemas são outros, alguns tão profundamente enraizados na minha psique que não sei mais o que fazer. Mas contive este impulso e repeti: um divórcio. Nessa hora escutei na minha cabeça a música do seriado CSI, sabe? Dos investigadores forenses? Aquele uuuuuuuhhh-ááá—tchu-tchu-tchutchu. A cara do baixinho procurando problemas nos papéis, olhando as bordas, farejando sangue. "Ahá! Isto aqui, ó, tem que estar especificado no pedido. ISTO AQUI está especificado no pedido?" Eu, com cara de Alexandre Nardoni em dia de perícia, disse que com certeza estava, com certeza, porque meu amigo Zagonel é um advogado muito competente que nunca cometeria um erro desses. Era a minha boca falando isso e o meu disco rígido de memórias passando as minhas lembranças com o meu amigo Zagonel: ele mexendo arroz com a colher pra cozinhas melhor; ele dormindo em sala de aula, do meu lado; ele escutando música muito alta e filosofando sobre surf. Pensei comigo que teria que voltar outro dia, com o pedido feito de maneira correta. Entretanto, o baixinho teve uma brochada forense e disse: ah, tá aqui, ó. Então está tudo certo, tá carimbado e é só levar de volta para a Vara de Família.

 

Eu nunca duvidei de você, Zagonel!

 

Lá fui eu pra cidade de Hamelin. O camundongo veio até o guichê, viu o carimbo e submergiu no mar de papéis. Quando ele emergiu, deu um sorriso de canto de boca e falou que estava tudo pronto. Aí eu perguntei como poderia fazer para saber o resultado do pedido, ao que ele espantado perguntou: não deram o número do protocolo pro senhor? Fechei os olhos, tendo um pesadelo em que voltava ao distribuidor, eles se olhavam, o baixinho perdia de novo e lá vinha a musiquinha uuuuuh-áááá. Mas a representante da sala, a menina de óculos, disse: mas você acabou de pegar os papéis dele, é claro que ele não tem o número, você que tem que dar pra ele. Sorri bem largamente por três motivos: não ter que voltar em outro guichê; pela presteza da menina em me ajudar; e pelo fato de alguém ter usado o verbo "dar" dentro da Vara – não se preocupem, eu sei o quanto isso é idiota, tenho noção.

 

Fui embora com o número na mão, tendo que voltar dali 21 dias pra saber o resultado da bagunça. Já no carro, num pedido mental, quase que uma oração, eu disse: tomara que a menina de óculos não comece a usar calças de tigresa e correntes douradas.