Quase que mensalmente tenho o prazer de participar do Improvável, o espetáculo de improvisação provavelmente mais bem sucedido e conhecido do Brasil. Aqui vou usar um pedaço do “release” de imprensa deles para apresentar, para quem não conhece, o espetáculo:

“Improvável é um espetáculo de improvisação teatral em que o mestre de cerimônia apresenta as regras dos jogos, a platéia sugere os temas e os atores improvisam as cenas na hora sem nenhuma preparação prévia. Desse modo, nenhuma apresentação é igual a outra. (…)O espetáculo é inspirado no programa televisão britânico ‘Whose Line is It Anyway?’ e também nas peças brasileiras ‘Zenas Emprovisadas’ e ‘Jogando no Quintal’.”

Apresentar com eles é sempre incrível. Além dos três integrantes da Cia. Barbixas de Humor (Anderson Bizzocchi, Daniel Nascimento e Elídio Sanna), também são convidados improvisadores de todo o país a se juntarem ao espetáculo. Estar no palco com improvisadores de muita qualidade e com jeitos diferentes de improvisar sempre fazem de cada final de semana do Improvável um pequeno congresso sobre a arte da improvisação.

Os assuntos são variados, nas conclusões e discussões pós-espetáculo, mas o assunto que me chamou a atenção neste final de semana e que me animou a escrever para vocês foram as cenas de amor. De um tempo para cá o Improvável viaja com a sua variação musical. O músico Daniel Tauszig acompanha o espetáculo tocando músicas que pontuam as cenas, acentuam climas, reforçam estados emocionais, trazendo espaços físicos e temporais. Sua improvisação acontece conosco o tempo todo e trouxe novas possibilidades ao espetáculo, inclusive de terminá-lo com um jogo complexo: o Musical. Sim, é como um musical de verdade, em que as pessoas começam a cantar “do nada” no meio da história.

Última sessão de Improvável em Blumenau -SC, dia 22 de abril de 2012

Foi neste jogo que o “fenômeno” aconteceu neste fim de semana. Era o jogo do Musical, que normalmente termina a sessão, e o tema dele veio de alguém da plateia. Era um consultório de odontologia e fisioterapia, e de cara virou a história de um dentista e de uma fisioterapeuta que, secretamente, são apaixonados um pelo outro. Só que, logo no início, o dentista foi embora do consultório deixando a fisioterapeuta sozinha. O dentista era o Elidio Sanna. A fisioterapeuta, no caso, era eu. Quando ele se foi, começou uma canção de amor. Não lembro da canção toda, acho que ela tinha algumas gracinhas durante a letra, mas ela terminava num tom mais emocional, num momento triste da mulher abandonada. Qual foi a minha surpresa quando a plateia respondeu a cena com aquele barulho de quem acabou de ver os olhos do Gato de Botas, do Shrek, fazendo aqueles olhinhos? Na continuação da cena, dava pra ver que a plateia estava torcendo para que o casal acabasse junto. Mas eu sou um cara! Sou maior que o Elídio, inclusive. Então como é que a plateia não reage como se isso fosse patético, estranho, esquisito?

O que foi sensacional disso é olhar para este fenômeno e ver o quanto é importante para a improvisação um caminho de sinceridade. A plateia vai embarcar com você em qualquer proposta que você leve de verdade a eles. É claro que essa experiência não é nova para o Antropofocus™. Quando fazemos o PEQUENAS CAQUINHAS, sempre lembramos que quanto mais de verdade fazemos as cenas, melhor é a visualização da plateia de que este é um momento “de verdade”, seja quando um homem faz mulher, uma mulher faz um boneco de ventríloco, um homem sem camisa faz uma galinha. Como conceito teatral isso sempre me pareceu bem claro. Como realidade em espetáculo de improvisação, não me lembro de ter essa experiência tão clara quanto neste último final de semana.

Obrigado aos amigos da Cia Barbixas pela nova experiência. Aguardo a possibilidade do próximo final de semana de congresso empírico de improvisação.