Morei no Japão. Foi há meia vida atrás, mais ou menos, mas me deixou marcado para sempre. Os costumes orientais foram incríveis de serem observados e apreendidos, durante um ano de experiência. Portanto, todas as vezes que o Japão chora por seus mortos, eu – gaijin (estrangeiro) nipo-italo-brasileiro – choro junto com eles.

Da última vez que o chão tremeu com toda essa intensidade, eu estava lá. Não teve uma tsunami tão violenta, mas a terra causou estragos suficientes. Foi em Kobe, em 1995. Na época, 6.000 pessoas morreram. Quando o terremoto em si aconteceu, estava na casa da família que me hospedava. Não senti quase nada, o terremoto foi a muitos quilômetros de distância. Soubemos quase que imediatamente por vizinhos, e a televisão ficou ligada o tempo todo. Torcíamos por sobreviventes e, enquanto isso, observávamos as regras principais a se tomar nessas horas: estocar água, ficar em casa se possível, não usar as linhas telefônicas. Sempre bom lembrar que era uma época quase pré-digital, em que a popularidade dos celulares e da internet ainda era baixa – mesmo por lá.

Passaram-se alguns dias até que liguei para os meus pais, no Brasil, para assegurá-los de que tudo estava bem. Eles estavam apreensivos, choravam bastante, tiveram medo de que algo pudesse ter acontecido. Todos os vizinhos, parentes, amigos brasileiros, ligaram para eles para saber notícias. Falei que o lugar era distante, eles tinham visto isso no mapa, mas E SE naquela semana eu tivesse ido visitar alguém naquela cidade?

Fui pego pela mesma comoção esta semana, ao ver as imagens do tsunami atual. E SE alguém, da família que me hospedou estivesse passando pelo nordeste japonês? E SE algum dos nossos outros conhecidos por lá estivesse naquela região? Mesmo quando as dúvidas em relação aos conhecidos cessaram, ainda havia os habitantes desconhecidos que morreram, perderam suas casas, perderam tudo. E SE eles tivessem escapado?

O país Japão virou uma vila, aos olhos dos meus pais e do mundo, quando todos pensam que, dentro das possibilidades da tragédia, há uma chance de que talvez algum conhecido seu estivesse exatamente lá, naquele lugar. Isso não é exclusividade do Japão. Quando ocorreram as grandes enchentes no início deste ano, você não lembrou de todo e qualquer amigo ou parente que tenha mencionado a serra carioca como ponto de férias?  Quando os informes de chuva em Antonina e Morretes começaram nesta semana, você lembrou de algum conhecido de lá?

Não importa quão grandes sejam os países, cidades, estados onde ocorrem essas tragédias. Para aqueles que tem afinidade, seja pelo território seja pelas pessoas conhecidas que podem ter sido atingidas, tudo é uma mancha que foi atingida pela tragédia. Perante nossos olhos tudo fica pequeno e apertado.

Assim como o nosso coração.

 

(publicado originalmente no site MidiaEducação)