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Finais de semana de futebol são sempre de análises das frustrações dos outros. Já tentei me apegar ao amor bélico irrestrito das competições futebolísticas, mas a verdade é inegável: não me importo. Não tenho palpitações o suficiente quando o adversário chega à grande área dos times que "torço". Não lembro da escalação e nem tenho recordações dos times passados, dos áureos tempos que anuviam os momentos momentâneos das tragédias da etapa do final de semana. Há os que considerem que este meu comportamento é até anti-nacional – isso porque eles nunca escutaram minha confissão de que também não tenho predileção especial pelo carnaval – mas sou uma ilha cercada de torcedores por todos os lados.
 

Os torcedores começam na minha família. Se tal time perde, eu já sei: meu irmão vai ficar chateado. Vai brincar um pouco menos, sorrir um pouco menos, perder um pouco da paciência e vai ficar mais calado, numa introspecção aguda, sonhando com as oportunidades perdidas no jogo. Sem nem saber, ele vai telepaticamente ajudando o técnico e seus asseclas a relembrar dos erros, a refazer as jogadas, a preparar melhor aquele outro jogador, a pensar nas contratações milionárias, a rever as condições do campo e da concentração. É estranho de ver, de fora, porque não há uma sensação de partilha de dor. Você observa atentamente, pensando se há qualquer laço fraternal que faço você levar um pouco desse peso embora, apoiando-o neste momento infeliz. Nesta hora você lembra que a compensação chegará, pois se você achava ruim o dia da derrota, achará pior o dia da vitória.

 

O assunto é esse: meu time. As alegrias do meu time, a raça do meu time, as cores do meu time, o imbatível do meu time, o comentário que "não, isso é legal mesmo, mas o MEU TIME…", o dia do meu time, o país do meu time, o meu time, o meu time, o meu time. Quem mandou ficar triste quando ele estava triste? Porque, agora, quem está triste é você. Pior: você não tem armas para combater os comentários, porque só quem está atento nas tabelas dos campeonatos é que são os Jedis que podem revidar esses ataques. Um dia que o time é sensacional, mas daí um tio do outro lado da mesa solta que o histórico desse outro time no campo de um terceiro time é pior do que dos confrontos com aquele time. Daí começa um vai e volta de porcentagens, gostos, nomes de jogadores atuais e de outrora, cor das camisetas, receita dos ingressos no gramado e na venda de jogadores. Eles lutam com seus comentários até que um desista ou que alguma mãe/esposa/avó/filha/filho diga: vamos mudar de assunto? O que é prontamente atendido com a seguinte frase: viu o Felipe Massa neste último domingo?

 

O assunto da família brasileira é definido pelo Galvão Bueno!

 

Frisando ponto importante: meu irmão é semi-light, peso médio do futebol. Não há violência e ele não fica doente quando o time perde – até onde eu sei. Mas em compensação tem o meu padrinho. Este sim! Este em dia de jogo é um herói grego que descobrirá, no final do dia, que transou com a própria mãe e matou o pai. A sua tensão e atenção ao jogo se inicia na véspera, quando metamorfoses começam a acontecer. Pêlos crescem mais rápido pelo seu corpo, as cordas vocais tem manutenção extra durante o sono para agüentar a demanda do dia seguinte, os nervos fazem sessão de yoga para agüentar o tranco. E que tranco! Meu padrinho lê o jornal de manhã já imaginando as cagadas que o pessoal vai fazer no jogo, porque que não sei quem é um bando de isso, e os outros são um bando de aquilo. O adversário nem se fale, esses sim são mais bando de alguma coisa! Lá vai meu padrinho pro campo, armado de radinho, ingresso e três toneladas e mau-humor.

 

Dia de jogo do time do meu padrinho a família já fica com o dedo em cima do número da ambulância. Minha madrinha e os filhos já sabem dos malefícios que serão enfrentados no decorrer do período – apesar de que eles sofrem pelo mesmo time, até porque se sofressem para outro time haveria uma cisão na casa. Minha vovó pega o terço e manda bênçãos protetoras, temendo que algo aconteça (você acha que eu tô inventado?). Cada gol levado, não importa em que país do mundo você esteja, lá vem a voz do meu padrinho crispada num grito: "mas que zaga/goleiro/atacante filho da…!"

 

Imagine você o resto, porque acho que as palavras escritas não farão jus ao nervosismo lancinante do meu padrinho. Muito menos ao outro lado da moeda, a alegria de quando tudo acaba bem e tudo é festa, estrelas, amor e paz. Repetindo a comparação de alguns parágrafos atrás, se eu fosse estudar um personagem como Édipo, eu deixaria pra trás as referências academicistas e cinematográficas sobre este personagem emblemático e iria direto pra casa do meu padrinho, só tomando o cuidado de não me deixar levar no meio da peça e gritar: mas esse Tirésias é um tremendo filho da…!

 

Tenho outros parentes que também têm relações especiais com seus times, alguns mais parecidos com o meu irmão, outros como a minha mãe – que torce pro time do meu irmão porque ele é o caçula – e alguns que tentam ser como o meu padrinho, mas não chegam aos seus pés. É pouco sábio achar que tal devoção não exige trabalho árduo e contínua preparação, que não acaba no apito final ou nas intermináveis mesas de bate-papo de bola. Eu, do meu lado, escuto um comentário solto na rádio de notícias e guardo comigo, só pra deixar o padrinho e o mano contentes, de que eu participo de alguma forma dessa paixão que eles têm. E, é claro, sempre que o meu time ganha, eu dou aquela cutucada! Vai que isso é ser brasileiro. Eu que não quero ser acusado de ser falsificado e ter uma torcida inteira gritando: mas esse diretor é um tremendo filho da…!