As últimas semanas foram passadas ao lado de muitas pessoas de fora da cidade, por conta de trabalhos. É sempre bom esse intercâmbio para reciclar o papo, aprender novas-velhas piadas, falar de futebol com torcedores de outros times. Foi numa madrugada, no centro da cidade, perto do bondinho da XV (um lugar que fica adoravelmente perigoso de madrugada) que passou um carro com o som a mil, quase estourando os vidros, com brilho de néon por baixo. Enfim, o pesadelo da madrugada sobre rodas. Só que um dos meus companheiros disse:

– Mas que coisa mais caipira! Será que eles não percebem que isso é caipira?

– Ué, na sua cidade não tem isso? – retruquei, achando que imbecis com decibéis extras eram uma constante em qualquer lugar.

– Só se for bem no subúrbio, porque na cidade… (aí já nem lembro da conversa, porque era um trabalho de madrugada e o sono atacou meu HD interno)

Será que somos uma cidade de caipiras? Lembro de uma famosa frase do Paulo Leminski que dizia: Curitiba é a maior cidade do interior de São Paulo. Uma deliciosa provocação que, tenho certeza, imediatamente ganhou dois times entre os leitores deste blog. O primeiro time é o das pessoas que “entenderam” a frase, e que trocam olhares de cumplicidade, fazendo um pacto de “eu também tenho a sofisticação necessária para entender este gracejo”. O segundo time é o dos que se ofendem, e imediatamente realçam as vantagens de se morar aqui e cospem impropérios, oferecendo passagens para que a pessoa se mudem daqui o mais rápido possível.

Nenhum dos times respondem a nossa pergunta, por isso vamos atrás de fatos. O que comprovaria que somos ou não da capital de um estado? Quais são os pontos identificados com a vida de uma capital? Dos problemas sei que temos todos eles: segurança, tráfego, educação, sistema de transporte (se você está elogiando de boca cheia é porque não tem visitado um ponto de ônibus com duas baldeações há muito tempo), sem-teto, consumo de crack, pichação, depredação pós-futebolística, etc. Então somos efetivamente uma capital!


Somos a maior cidade do estado, daqui saem as leis que regem o desvio de dinheiro de obras públicas para as grandes oligarquias. Daqui saem muitos dos corruptos que abastecem Brasília com o selo de qualidade “do Paraná”. Portanto, somos uma capital.

Por outro lado, somos uma cidade que quase não conta com restaurantes abertos após às 23h. Você lembra quando a Rua 24 horas foi aberta? Nem faz tanto tempo assim. Era uma grande novidade na cidade ter um ponto que não fechasse cedo, onde se pudesse comer sem estar cercado pelos habitantes do baixo meretrício – coisa fofa em contos underground.

Grandes shows não passam por aqui, porque nosso único lugar para eventos desse tipo está sob litígio há muito tempo. Curiosamente é a pedreira Paulo Leminski, o mesmo da provocação.

Mas há fatos que comprovam que não somos o interior e são desabonadores! Sim, oh leitor, que achava que eu, aqui, elejo qualidades para as capitais e falhas interioranas. Que nada! Passei muito verão em Nova Concórdia, nos arredores de Francisco Beltrão, para não saber das vantagens de se estar longe dos semáforos de três tempos e das muitas possibilidades – a maioria não aproveitadas – de entretenimento. Quando foi que você visitou um amigo seu sem planejamento? Você já passou pela frente da casa de algum deles, pensou na sua saudade dessa pessoa e bateu na porta? Sempre tem um (uns) email, telefonemas, consulta na agenda, conferência com cônjuge. Nem amigo doente a gente visita sem conferir datas, horários, agenda, etc.

Tudo isso só para chegar a uma conclusão rasa, porém bastante satisfatória sobre onde a gente mora: em Curitiba, cidade-capital cheia de peculiaridades que expulsam uns e atraem outros, onde se gosta de comer pinhão e tomar leite quente, onde não é proibido ser brasileiro e achar o carnaval um saco, onde as quatro estações visitam a gente num dia só e isso vai fazer parte do assunto geral do dia.

Num mundo tão globalizado, é sempre bom saber que você mora num lugar único, sem igual.