No dia 01 de dezembro de 2019, um domingo de clima ameno, a Cia Mequetrefes de Itajaí (SC) comemorou 02 anos de existência no espaço Itajaí Criativa, uma residência cultural pertinho do mar – com direito a som de apitos de navio de tempos em tempos. Eu estava lá com eles neste dia e, ao longo de 2019, fui outras duas vezes a cidade prestando um trabalho de professor de improviso e consultor de formatos de improvisação. Nesse dia de celebração eles apresentaram um formato mid-form chamado “La Direción”, junto com os convidados curitibanos da Cia Arvoredo (que, ano que vem, comemoram cinco anos de existência) e com a Ester Graf de Blumenau (SC), em que filmes improvisados são dirigidos com a ajuda da plateia. A casa estava cheia, a apresentação teve vários momentos incríveis e todo o elenco era de artistas jovens que estão buscando formação técnica em improvisação. Mesmo antes da apresentação, no caminho para a Itajaí Criativa, fiquei pensando o quanto um evento desses era significativo para o improviso nacional.

O improviso está presente nos palcos brasileiros há muito tempo e não vou ser eu, aqui, chutando da minha cabeça, que vai te contar quando isso começou. O Antropofocus, grupo que eu dirijo em Curitiba, começou a fazer isso publicamente em outubro de 2000. O Jogando no Quintal (SP) começou um pouquinho depois. Em Curitiba (não lembro se antes ou depois) apareceu uma galera de Theatresports e, nos registros da ITI (associação que cuida dos formatos criados por Keith Johnstone) tinha uma associada nos anos 90 lá em São Paulo. Em Curitiba tinha (tem!) o Mauro Zanatta, nos anos 90 recém-chegado de uma viagem de estudos pela Inglaterra ensinando improvisação. Isso tudo (e tem muito mais) pra dizer que eu não sei quando começou, mas eu sei quando a notoriedade explodiu.

Quando a Cia Barbixas de Humor colocou seus jogos de improviso no YouTube, há mais de onze anos atrás, eles não tinham ideia do tamanho da influência que eles teriam nacionalmente. Além de ficaram famosos com o espetáculo Improvável, de serem chamados para programas de televisão, de terem milhões de curtidas e seguidores fiéis, um dos fenômenos silenciosos que poucos conhecem é a quantidade de artistas (iniciantes ou não) que começou a imitar o formato de jogos de improviso. Muitos sedentos pela ascensão da fama, outros realmente interessados nas possibilidades do formato.

O problema é que diversos artistas que começaram imitando o formato de jogos acharam que improviso era algo fácil, que era só chegar lá e fazer o jogo do Troca de qualquer jeito e que, em pouco tempo, eles seriam famosos também. Quando dão conta da realidade, da demanda de treino, aperfeiçoamento, estudo técnico, a maioria desiste.

Não é o caso dos Mequetrefes, de Itajaí. Quando nós conversamos da primeira vez, no 3o. Encontro de Improviso da cidade em agosto de 2018, a conversa deles era sobre como ir além do espetáculo de jogos, que eles já faziam. Vale ressaltar que todos os grupos ou artistas que já me procuraram para receber aula de improviso tem um discurso similar, de evolução, da busca de desafios novo, de melhorar sua técnica e de fazer long-form (improviso longo). Mas eles não tinham só o desejo, eles tinham planos.

Nesses planos estava um cronograma continuado de aprimoramento, em que eu era o professor daquele momento e que, na sequência, eles queriam saber como trazer novos professores para a cidade. Eles queriam melhorar os projetos já em andamento no grupo, para que depois eles tivessem bases claras do que iriam fazer fazer em projetos futuros. Eles já queriam – e continuam querendo – que a cidade de Itajaí seja uma base de intercâmbio entre grupos do estado de Santa Catarina e de outros estados e que o movimento de improviso possa se fortalecer tanto artisticamente, perante curadorias de festivais e de programas de leis de incentivo, quanto academicamente, para que as faculdades também se interessem na linguagem e possam ampliar seu olhar para a técnica.

E esse grupo acabou de completar dois anos.

E, como convidados desse grupo, tinha a Cia Arvoredo de Curitiba, que também tem objetivos bastante similares.

E, logo ali pertinho de Itajaí, tem o grupo Remanecentes da cidade de Gaspar, que também mantém a prática do improviso.

E em Florianópolis surgem novos grupos e espaços começam a destinar pautas para apresentações de improviso.

Então, ao final da comemoração dos dois anos de Mequetrefes, eu fiquei muito feliz tanto pelo grupo quanto pelo improviso nacional, pois há uma nova geração forte, que foi atraída ao universo do improviso pelos jogos (obrigado a Cia Barbixas por inspirar tanta gente pelo Brasil) e que poderá trazer novidades tanto em jogos quanto ao futuro da linguagem técnica.

Eu comemorei muito no dia 01 de dezembro e você, leitor que gosta de improvisação, deveria estar comemorando também.