Na semana passada, uma amiga muito querida e próxima sofreu um acidente grave. Ela é iluminadora teatral, e uma das funções dela, enquanto iluminadora, é afinar a luz. Isso significa subir em escadas altas e reposicionar a direção dos fachos de luz para posições corretas no palco. Na última sexta, por um acúmulo de fatalidades, ela caiu de uma dessas escadas.

Já trabalhei com iluminação e já subi muitas dessas escadas. A sensação de fragilidade, nas primeiras subidas, é substituída pelo orgulho de conseguir alcançar as alturas sob o olhar temeroso dos colegas.

Já cai de uma dessas escadas. Era uma apresentação em Ponta Grossa, interior do Paraná, onde o técnico da casa nem sabia que dava para mudar as lâmpadas de lugar. Subi, era uma daquelas escadas que encaixa em cima, portanto ela pode abrir em “V” ou pode correr uma pela outra e ficar ainda mais alta. Mas o encaixe não estava bem feito. Só deu tempo de avisar que ia pular e cair lá de cima, quase num dos atores. Quase quebrei as pernas e a bacia. Quase.

“Quase” é a palavra mais falada num momento em que quase tivemos uma fatalidade. Num acidente real, ele é substituído por “e se”.

E se ela não tivesse subido?

E se outra pessoa estivesse lá?

E se ela tivesse caído de outro jeito?

E se ela comesse cebola?

E se …?

No mar das possibilidades posteriores, as escolhas ideais são feitas sem pestanejar. Para quem conheceu o resultado trágico das ações, selecionar situações que poderiam mudar o resultado acaba sendo um raciocínio banal, “quase” como se fosse fácil antever aquilo que de fato aconteceu.

No mundo dos comentários do “quase”, exercitamos nossa maternidade ou paternidade com os quase acidentados. No mundo dos “e se”, nos falta como interlocutor a pessoa amada, pois nesse momento ela não consegue ouvir que estamos fazendo um esforço tremendo para reconstruir o passado, de uma maneira que o acidente nunca tenha acontecido.

Mas aconteceu. Apesar de você estar num quarto pertinho daqui, já sentimos muitas saudades de você.

A única resposta fácil de responder é “e se ela comesse cebola?” A resposta é que ela não seria essa fresca com comida, como ela é. Mas a conclusão é que este é mais um dos detalhes que sempre fez dela uma amiga única.

Qual é o motivo de escrever este artigo? Em parte, é para escrever sobre a fragilidade da vida, sobre aproveitar cada momento com as pessoas que você gosta, lembrar de abraçar seus amigos e dar certeza do quanto são importantes na sua vida, pois são a família que você escolheu – nenhuma imposição genética.

A outra razão é conseguir mais pensamentos positivos pela melhora dessa amiga. Se você leu o artigo, você já fez isso.

Obrigado.