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Quarta de manhã.
Cedo.
A luz lá fora anuncia o final de mais um carnaval.
"Tem japonês no samba", gritavam as pessoas ao redor.
Mas ele não ligava e continuava dançando todas as noites, com esse jeitinho de desenho do He-Man.
Muito carnaval, muita folia. muito tudo.
Hora de trabalhar.
Lá vai ele.
O corpo vai, a cabeça sempre chega uns segundos depois, causando dor na freada de chegada.
No trabalho, o pessoal do Escritório não está diferente.
Todos com aquela cara inchada.
Menos o chefe, claro.
O chefe não pulou carnaval.
Ele se preservou.
Pra continuar a torturar todos na quarta-feira de cinzas.
Que não é feriado, porque o chefe não acredita em Deus.
Ele acredita em hora extra.
Já chega lançando perguntas a torto e a direito, sobre coisas que deveriam estar prontas desde antes do Natal, portanto agora deveriam estar mais do que acabadas senão todos aqui vão ver uma coisa e blá, blá,blá.
O japonês sorri por dentro.
Está tudo pronto, e ele vai ter o prazer de contar pro chefe.
Em voz alta, na frente de todo mundo.
A melhor cura possível pra uma ressaca é ser o herói do escritório numa quarta-feira de cinzas.
Ele levanta.
Ele fala.

Só sai japonês de sua boca.

Ninguém no escritório entende nada.
O chefe considera uma brincadeira de mau gosto.
Um amigo polaco até estranha, pois foi ele quem ensinou o japa os nomes dos sushis.
O japonês leva a mão a boca.
Olha a todos.
Pede desculpas pela confusão.

Só sai japonês de sua boca.
 

O chefe, vermelho de raiva, esbraveja.
O pessoal do escritório fica atônito, sem saber se é uma brincadeira, uma "piada prática" – como diriam os americanos.
O japonês está lívido.
Sua única explicação: ele perdeu seu português durante o carnaval.
Era preciso encontrá-lo, e rápido.
A saída hollywoodiana do escritório será lembrada por anos na empresa.
Especialmente o chefe que, de tanta raiva, foi parar no pronto-socorro.
A busca pelo português começa de trás pra frente.
No boteco da última noite, porque não podia pegar tão pesado antes de voltar a trabalhar.
Nada.
No salão do clube, onde cair na piscina com a roupa de marinheiro parecia adequado – pra descobrir, tarde demais, o quanto o branco ficava transparente quando molhado.
Nada.
Na orla da praia, quando uma havaiana de Santa Catarina passou mal no seu colo, mas continuava linda sob a luz do luar (ou sob o efeito do álcool).
Nada.
Foi na boate gay, onde ele jura que só se vestiu assim porque era tradição.
Nada.
Voltou pra casa.
Contou para todos o que estava acontecendo, com a ajuda dos avós que ainda falam japonês muito bem.
O irmão menor não agüenta e dá uma risada, fora de hora.
Tira do bolso o português, roubado num dos desmaios do mano em seu quarto.
Roubara no sábado, e aguardava que o irmão percebesse muito antes.
Vários palavrões em japonês, que não foram traduzidos pelos avós.
Na quinta, ele vai ao escritório aguardando a demissão.
O chefe, safenado, não voltará essa semana.
Nem na próxima.
Chefão – o sujeito acima do chefe – considerado tudo um mal entendido, um trauma pós-feriado, que deve ser esquecido para que todos voltem ao trabalho.
Todos olhavam o japonês com certa admiração contida, e pequenos favores como cafezinhos, chocolates e material de escritório novo apareciam em sua mesa todos os dias.
Eles mal podiam esperar o que o japonês faria depois da Páscoa.