Publicado originalmente em Projeto Secreto Bananas

Os dois velhos japoneses estavam ali, parados, encarando um ao outro sem piscar, espadas ainda dentro da bainha, os poucos cabelos que restavam ondulando com o vento da fria manhã de primavera. Quem olhasse de fora veria que ali, sobre aquela montanha, em poucos instantes nasceria o sol com a vermelhidão da bandeira nacional, antevendo o resultado desse encontro.

Quando jovens, Toshiro e Hideki chegaram a ser amigos. Trabalharam juntos nos campos de arroz da aldeia, riram juntos quando uma senhora caiu de bunda dentro da água, choraram juntos quando o marido dela usou uma pedaço de bambu na cabeça deles, cantaram juntos para espantar o frio quando ainda não tinham permissão de beber, ficaram bêbados pela primeira vez juntos, foram a guerrear juntos, enterraram amigos no campo de batalha juntos, voltaram juntos.
Mas, infelizmente, se apaixonaram juntos pela mesma mulher.
Saya era uma bela jovem da aldeia. Desprovida de curvas consideradas acentuadores de feminilidade pelo mundo latino, ela era perfeita em sua linearidade. Toshiro e Hideki, enlouquecidos de paixão, pediram-na em casamento quase que simultaneamente. O resultado disso foi um bate-boca em japonês no mais baixo calão – que não transcrevo aqui porque não entendi (entender japonês já é difícil, mas xingamentos medievais são impossíveis).
Atormentada pela escolha, a pequena e retilínea Saya caiu doente e morreu. Toshiro e Hideki culparam um ao outro e, como se criassem a frase para um épico japonês, combinaram:
– Daqui a 30 anos nos encontraremos no topo daquela montanha para um duelo até a morte!
Nos anos seguintes, os dois sempre falavam sobre o duelo dos 30 anos! Onde quer que fossem, em qualquer lugar que estivessem, eles falavam sobre o duelo que venceriam de qualquer jeito. Ridicularizavam o outro, falando de suas fraquezas e usando histórias pessoais íntimas, daquelas que só os melhores amigos conhecem.
E quando se encontravam na vila? Era novamente aquela coleção de xingamentos nipônicos. Ambos colecionavam novos palavrões sempre que viajavam para outras vilas e usavam com o inimigo declarado todas as vezes que se viam.
O pessoal da vila não aguentava mais. Por eles, o duelo teria sido no dia seguinte, para que eles não sofressem com a pilhéria entre os já não tão jovens Toshiro e Hideki. Todos na vila saiam de perto quando qualquer um dos dois chegava e logo ambos xingavam e falavam mal um do outro mesmo quando não havia ninguém para ouvir.
O tempo foi passando, ambos foram ficando velhos e barrigudos (muitas pessoas da vila davam comida para que eles calassem a boca). E, a medida em que finalmente chegava o grande dia, Toshiro e Hideki foram falando cada vez menos sobre o assunto e a vila foi ficando animada. Grupos de apostas começaram a pipocar de todos os lados, com fortes argumentos em defesa de cada um deles. “Toshiro é muito forte, já vi ele carregando uma carroça morro acima”, ou “uma vez, Hideki disse um palavrão tão inominável que três mulheres que estavam próximas ficaram com todos os cabelos brancos de um dia para o outro”.
Enquanto isso, no coração dos dois amigos ia crescendo a sensação forte do arrependimento e a compreensão, que só a idade trás, que a juventude provoca ímpetos dos quais nos arrependemos. No fogo da morte da mulher amada ambos juraram não falhar ao duelo, sob pena da morte de suas mães. Mesmo se passando 30 anos ambas as mães continuavam vivas, culpa da maldita longevidade daquele país.
No último mês, os dois ex-colegas de armas perceberam que não conseguiriam escapar do compromisso firmado na juventude e se preparam, da melhor maneira possível. Escreveram testamento, cuidaram da alimentação, fizeram exercícios, limparam suas espadas, comeram suas comidas favoritas, escreveram hai-kais e deixaram no templo de suas famílias. Toshiro era visto meditando, todos os finais de tarde. Hideki era visto sob a cachoeira gelada, todo começo de dia.
Estavam prontos.
Um dia antes do grande dia, eles se encontraram no meio da vila. Toshiro trazia um papel e tinta, e Hideki tinha em suas mãos um pincel. Falaram tão próximos e tão baixo que ninguém na vila acreditou que eram os mesmos velhos brigões de sempre. Eles se ajoelharam cerimonialmente, escreveram juntos, colocaram o carimbo de suas famílias embaixo e penduraram na ponta: o duelo será realizado ao final do dia, no topo da montanha.
Antes do raiar do sol, lá estavam eles. Tinham concordado que o duelo seria sem testemunhas.
Por mais dignos que eles quisessem ser e por mais chique que seja você ser japonês e se preparar para um desafio de espadas, a verdade é que a idade e o sedentarismo de passar a vida inteira reclamando um do outro tinham cobrado o seu preço. Cada um sofreu muito para subir a montanha e, se estavam parados se encarando, não era por respeito. Era para retomar o fôlego.
Toshiro pegou a espada e soltou um berro que assustou Hideki. O que parecia um uivo de um lobo assassino depois se revelou a câimbra de um cachorro desdentado. Aproveitando o momento, Hideki sacou sua espada bem lentamente, mas ele não conseguia mantê-la levantada por muito tempo. Toshiro, entre a dor da câimbra e a consciência de que seu inimigo, tropeçava em direção a Hideki. Este tentava manter a espada levantada a qualquer custo, suando loucamente.
No tropeço de um e no susto do outro, ambos enfiaram as espadas em sincronia, atravessando seus corpos. Ao caírem frente a frente, próximos um do outro a distância de um beijo, olharam diretamente nos olhos um do outro e falaram em uníssono:
– Eu te perdoo.
A morte de Toshiro e Hideki foi assunto na vila por décadas. A maioria ficou até aliviada com este fratricídio duplo, porque todos imaginavam que o vencedor seria um desses bêbados que vivem se gabando da única coisa que fizeram na vida. Outros achavam que a vila tinha perdido uma parte charmosa de seu colorido local.
As únicas pessoas felizes com a morte de ambos era a família da casa de apostas, pois ficaram com todo o dinheiro para eles. Usaram estes fundos para investir numa pequena oficina e, graças a imaginação de seus descendentes, séculos depois eles venderiam walkmans para o mundo todo.

 

PS – Saya não morreu de amor ou desespero. Morreu de difilobotríase, uma tênia que pode estar presente em salmão cru. Isso não é importante para a história, mas é um aviso de saúde pública.