Isolamento social dia 242

Querido diário: depois de uma perda ou de uma separação, filmes adoram fazer cenas com chuva. É um clichê de linguagem e que funciona, porque todos que estão assistindo entende o sentimento de perda, de dias de chuva, de olhar as gotas que correm no vidro. Ou, talvez, a gente veja dias de chuva assim de tantos filmes que vimos que usam essa referência. Vai saber.

Será que eu vejo o mundo diferente de tantas vezes que eu escrevi em você, querido diário?

Mas, hoje não era disso que eu queria falar. Eu queria falar sobre dor em dias de sol. Quando estamos tristes e está chovendo tudo se encaixa na nossa vida hollywoodiana. Ninguém vai questionar sua dor, ela faz sentido. Mas e quando o dia é de sol? Se for num dia de alegria para todos os outros seres humanos?

Eu comecei a pensar nisso ontem, vendo uma cena de chuva no seriado “O Gambito da Dama” (desculpa o spoiler de te contar que, em algum momento da série, tem uma cena de chuva) e de pensar o quanto isso é longe do real. Curitiba enfrenta uma escassez de chuvas este ano, reservatórios de água estão em seus limites mais baixos, a situação está se complicando cada vez mais. Se tivesse chovido a cada vítima estaríamos com problemas de outra natureza.

No nosso egocentrismo, achamos que o mundo será alterado por nossos sentimentos. O mundo será alterado por nossas ações. Nossa falta de chuva não tem nenhuma relação com a tristeza dos casos de COVID, mas pode ter conexão com o fato de que ano passado o Paraná bateu recordes de desmatamento e que corre, com aquela sede louca que só o capitalismo que rende frutos para um grupo mínimo de pessoas, é capaz.

Querido diário: se o planeta fosse cineasta, eu duvido que momentos em que morrem humanos seriam dias de chuva.