Thiago andava cabisbaixo pela rua. Vida difícil, aquela de ator/modelo que ele tinha escolhido. Trabalho raros, pagamentos insignificantes, um monte de sacrifícios e nada. Foi aí que ele levantou a cabeça e viu um outdoor e se reconheceu na foto. Uma propaganda de plano de saúde. Mas ele mesmo não lembrava de ter participado de uma propaganda… Ah, ele vendeu umas fotos pra um banco de imagens, verdade! E lá estava ele. Engraçado a sensação de ser ele, mas não ser ele, porque na foto ele nem tava pensando em plano de saúde, estava pensando em conta de celular, pra poder continuar a receber propostas que nunca vieram.

– Na verdade, você tem razão. A foto não é de você. Sou eu.

A voz veio do lado e Thiago estranhou ao ver a si mesmo. Só que diferente. Igual. Mas diferente.

– Você se parece muito comigo.

– Mas não sou. Prazer, Bruno.

Bruno tinha o rosto de Thiago, a altura de Thiago, mas tinha o cabelo e a barba cortada de maneira perfeita, a pele sem nenhuma mancha, roupa muito cara (um terno de corte italiano que caia perfeitamente sobre seu corpo) e, apesar do calor de 46 graus, nem uma gotícula de suor.

– Você parece muito comigo, Bruno.

– Posso dizer que já fui você, mas não sou mais. Tudo começou com uma imobiliária, que pegou uma foto sua e colocou num site dizendo: Tem dúvidas? Fale com Bruno. Várias pessoas começaram a falar com alguém chamado Bruno, via mensagem de texto. Naquele dia, eu, Bruno, nasci. Jovem, bonito, com talento para sanar dúvidas e noção de barganha e venda. Depois, foi uma universidade que usou uma foto com os dizeres “Aqui você faz a graduação dos seus sonhos”. Tantas pessoas sonharam com suas graduações que eu sou formado, mestrado e doutorado em praticamente todas as matérias.

– Isso é loucura…

– Também achei, mas como sou doutor em Psicologia, logo descobri que não. Depois foi um banco, dizendo “Seu sucesso começa aqui” e tudo que eu fazia virava um sucesso. Tudo. Sou dono de diversas companhias agora. Agora sou um exemplo de saúde.

Bruno mostra a campanha do plano para Thiago, que lê “Seja você também um exemplo de saúde”.

– Seu sucesso… Não existe. Você sou eu!

– Não senhor. Você abriu mão da sua imagem. A sua imagem conquistou coisas que você nunca imaginaria em conquistar. E agora elas não são as suas. Elas são minhas.

– E porque você esta aqui?

– Tó – disse Bruno, entregando um envelope cheio de dinheiro para Thiago – veja se cuida de você mesmo. Isso que você faz pega mal pra nós dois.

Bruno sorriu e foi saindo e entrou num carro importado. Ainda gritou “Tenho vários, por causa de outdoor de concessionária”. Arrancou e saiu, rindo.

Thiago, com lágrimas nos olhos, vê o envelope com todo aquele dinheiro. Toma uma decisão.

Dias depois, Bruno entra numa sala de reunião e, em vez de receber os apertos de mãos de homens que querem parecer mais confiantes do que realmente são e olhares lascivos de quase todos, ele percebe que há um estranho clima. Pessoas rapidamente escondem revistas e ele pede que mostrem. Agora. Estou mandando.

Na capa – e por várias páginas de uma revista de fofoca – fotos de Bruno (Thiago? Maldito Thiago) em locais bastante suspeitos tendo sexo com michês, bichos, detalhes sobre amantes que morreram de doenças terríveis e a certeza de que provavelmente Bruno já tinha todas elas e mais.

Bruno sentia que o outdoor do plano de saúde não estava fazendo mais efeito. A revista deveria estar em plena circulação pois as manchas estavam já pela sua pele. Do caminho percorrido ao fugir da sala da reunião até o elevador, as doenças já tomavam seu sistema circulatório. No elevador até o lobby, Bruno simplesmente desapareceu, carcomido por dentro por doenças que não existiam – a imaginação das pessoas era terrível.

Foi fácil para Thiago produzir as fotos. Nem precisou usar todo o dinheiro, já que as fotos tinham que parecer trabalho de paparazzi. Para garantir, mandou um video curto (esse só saiu na internet), em que pedia pra atriz que ele contratou para chamar ele de Bruno. Com o restante do dinheiro, comprou a exclusividade das próprias fotos no banco de imagens.

Semanas depois, Thiago estava numa sala de reunião no topo de um edifício. Diversos diretores de empreendimentos capitaneados por Bruno queriam contratar Thiago para se passar pelo diretor, desaparecido sem deixar sinais de para onde ele teria ido.

– Basicamente é isso. Você topa?

– Vender minha imagem pra me passar por outra pessoa de sucesso?

Os diretores menearam suas cabeças, aflitos, pois essa era a única saída que acharam.

– …Topo.

Thiago era bom ator. Fez um Bruno excelente por muitas temporadas.