No dia dos meus 38 anos, em que segundo a tradição japonesa o homem entra numa idade de crise, ganhei de presente um país em crise.

Coxinhas e petralhas passaram o final de semana brigando, mas pelo menos (na grande maioria das vezes) foi online e não fisicamente. Alivia, mas não melhora.

Na segunda, as timelines se enchem de ofensas e ironias ao outro, júbilos de vitórias vazias, enquanto em Brasília nada mudou. Continuamos com quinhentos e demais deputados, com quase uma centena excessiva de senadores, com ministros que não ministram, uma presidente eleita com discurso de esquerda e ações de direita (que, como vetores, parecem se anular completamente) e um líder de oposição, que quase ganhou, com muitas suspeitas criminosas e de incompetência executiva.

Todos querem que o OUTRO mude, porque o OUTRO esta errado. E, quando alguém aponta o próprio erro, logo é acudido por um parceiro de time dizendo “bobagem, o do outro é pior que o nosso”.

Cada lado insiste que o inferno são os outros, ora apoiando velhas oligarquias que deveriam ter perecido séculos atrás,ou surdos aos próprios discursos velhos que não isentam a pessoa de ser correta.

É kafkiano ver previsões de uma melhoria na economia nacional no segundo semestre, feitas por respeitáveis empresas internacionais e nacionais. Fica um cheiro forte de que a crise veio para trazer lucros para algumas pessoas selecionadas, que isso é uma grande brincadeira illuminati que já vai passar, e que você vai esquecer porque tudo vai melhorar coincidentemente com o início do Campeonato Brasileiro de Futebol.

Em teoria, todos estão brigando pelo fim da corrupção e por um Brasil melhor. Na verdade estão brigando pelo fim da corrupção do OUTRO. Em Curitiba, por exemplo, para cada “Fora Dilma” gritado deveria se ter um “Fora Richa!”, se o grito é por insatisfação com a incompetência de governo. (Odeio usar exemplos de futebol, porque catalizam uma questão de torcida tão cega quanto a política, mas vamos lá) Se você é atleticano e defende o fim da corrupção, além de ir na passeata você tem que pedir a investigação dos gastos exagerados do seu estádio. Senão, continuaremos na mesma ladainha: eu não quero que você roube, mas eu posso porque mereço.

Confesso que, egoísta, escrevo este texto mais pra mim do que pra você. Queria me lembrar, num futuro qualquer, o que estava pensando neste momento que, espero, sejam de uma possível virada de mentalidade nacional.