Da primeira vez que vi um filme 3D foi no tempo do óculos vermelho e azul.

Foi num dos falecidos cinemas de um shopping de Curitiba (é engraçado lembrar que era um cinema de shopping que tinha pouco público, porque os cinemas de rua arrematavam todo mundo). Certa hora, durante o filme, a atriz colocava o óculos 3D no filme e a gente fazia o mesmo. Uma festa, para um pré-adolescente, era um filme de terror 3D. Uma festa que durou um minuto e pouco.

Neste breve momento, foi divertido ver a motosserra vindo na nossa direção. Super legal, gritos das pessoas no cinema, viva. Mas era um momento parque de diversões, e mais nada. Chato esperar pelo 3D e ter só aquilo. Fiquei decepcionado, de verdade.

Quando a tecnologia nova do 3D surgiu nos cinemas – e em algumas tevês – estava um pouco receoso que fosse o mesmo efeito brochante que tive no filme do Jason. Mas não foi, pelo contrário. Era uma animação, chamada Bolt, o Supercão, e o 3D fez com que os desenhos na telona de cinema tivessem um novo sentido. Depois teve Avatar, que também era uma experiência estética e cinestésica incrível, dentro do universo 3D (eu revi na “versão normal” durante uma viagem e já não achei grande coisa). Depois, ainda movido pelo novidade, fui ver Fúria de Titãs, que era um engôdo (o 3D era mais mequetrefe que o do Jason). Mas ainda queria saber para que tinha sido feita essa tecnologia, fora do efeito parque de diversões.

Afinal, o comentário geral do 3D era sempre “nossa, parece que tá saindo da tela”, ou ainda “isso é verdade?” Eu estava curioso para descobrir em que momento a tecnologia nova realmente serviria para abri novos caminhos.

Ontem eu descobri: Pina.

%CODE1%

O filme mostra uma narrativa coreografada da grande criadora do teatro dança Pina Bausch. Suas coreografias ganham vida tanto pelos corpos quanto pelos relatos dos artistas que trabalharam com ela. Somos convidados a ver coreografias em palcos, em espaços abertos, em estúdios, sempre revelando a beleza do movimento do corpo humano quando esta carregado de significado. Dá muita vontade de ver uma das coreografias de Pina Bausch ao vivo. Mas, de certo modo, o 3D esta proporcionando isto a você.

Não é mais o retrato dinâmico do que seria uma coreografia, ela realmente tem a profundidade e os contornos reais do corpo. A experiência de estar na plateia de um ensaio ou de uma coreografia de Pina Bausch se acentua de tal maneira, que é mais plausível imaginar o que as pessoas sentiram, há mais de um século atrás, fugindo do cinema quando viram na tela um trem vindo na sua direção.

Já aviso que, ao contrário de Avatar, a experiência de ver o filme na “versão normal” não destruirá a sua experiência cinematográfica. Ao contrário dos personagens azuis de James Cameron, as coreografias de Pina Bausch foram feitas com a intenção de mostrar que o ser humano, em sua veracidade, tem três dimensões. Ou mais.