Nota: Querido leitor,

Sinto muito se esta primeira coluna tiver cara de prólogo estendido. Espero que não seja o epílogo do nosso relacionamento.

Queria muito que o título dessa coluna fosse meu, uma dessas raras sacadas originais que “ninguém mais teve”, pra provar pro Seu Fukuyama que a história não acabou e que há muito mais a acontecer neste mundo. Mas o mundo é grande e pequeno. Bastou uma googleada (sim, isto é um verbo neo-tecnológico, portanto acostume-se a ele) para descobrir que a expressão não é nova e data de um tratado de Santo (?) Agostinho. No livro, ele diz que errar é a prova máxima que uma pessoa existe, pois tudo o que É erra, pois se não errasse seria divino (e não existiria! – um pequeno sofismo, nada mais). Apesar de descobrir minha falta de originalidade, Agostinho só me ajudou a confirmar o nome da coluna. Quero falar muito do erro que confirma a nossa existência como ser humano e que amplia as nossas possibilidades.

Mas… Esta não é uma coluna sobre improviso?

Sim! O erro é uma questão chave da improvisação, afinal quando começamos qualquer improviso, a falta de roteiro ou de um acordo mais abrangente sobre todos os pontos que serão articulados nos próximos segundos-minutos-horas obrigando a todos que estão em comunhão para fazer a cena a abraçar a ideia do erro e de suas possibilidades. Aceitar o que pode vir da falta de certeza e usar de tudo que der errado de forma positiva estão no núcleo desta arte.

Vamos só limitar aqui a abrangência que o termo “erro” terá nesta coluna. Se você colocar fogo na sua cueca de propósito aos 17 anos ou se você roubar dinheiro público, nenhum dos dois casos são erros – são burrice e falta de ética. Erro é aquilo que você comete em busca do acerto ou quando você toma a coragem necessária para sair do padrão esperado e muda a sua visão e a dos outros, na busca de novas perspectivas (nem que seja voltar revigorado ao padrão anterior). Errar é aprender além da medida, é saber que tudo pode ser mudado, que a vida pode ser maravilhosa (valeu Ivan Lins).

O meu primeiro ERRO será que esta coluna seja dedicada a toda a comunidade de improvisadores e pessoas que nunca improvisaram em suas vidas. Uma coluna escrita por um improvisador, dentro de um portal de improviso, provavelmente fosse dedicada a “classe”. Mas uma das grandes qualidades da arte do improviso é que ela se abre para aqueles que ainda não tem proficiência no assunto, convidando a pessoa a improvisar junto e colaborar com a história usando de sua inexperiência, da sua falta de traquejo, dos seus erros. É como se a história se moldasse por qualquer coisa que aconteça nela, como você faz no seu dia a dia, né?

Uma das melhores frases de John Lennon, que com certeza será repetidas aqui, é “A vida é aquilo que acontece quando você está ocupado fazendo outras coisas”. Nunca estamos prontos para todas as facetas do dia seguinte, então temos que nos adaptar a todas as coisas que acontecerão. Mesmo as boas! Quantas vezes você já enfrentou o dilema de ter que decidir entre duas coisas incríveis de se fazer que acontecerão no mesmo dia? E como você lidou com a frustração de ter escolhido “errado”? O conceito de voltar ao passado e corrigir seus atos tem um apelo incrível ao ser humano. Com certeza é uma das perguntas frequentemente feitas em entrevistas profundas na revista Capricho e no Video Show. Você já esteve na rodinha de papo em que alguém levanta a possibilidade de voltar ao passado e corrigir um dos grandes problemas da humanidade? As repostas vão de prevenir o nazismo, prevenir o sionismo (dois movimentos políticos que não deveriam ter nenhuma relação um com o outro), impedir a bomba de Hiroshima, colocar botes salva-vidas no Titanic, não votar no Collor. É fácil. Pensar num vilão do passado e atacá-lo é fácil. Até a revista Veja consegue fazer isso. Difícil é tomar a decisão de o que podemos fazer hoje para melhorar o mundo. Pois, qualquer que seja a nossa decisão, poderemos ter que enfrentar os olhares céticos das pessoas ao nosso redor. Pior: talvez estejamos errados! Segue o seguinte diálogo mental:

– Como vamos saber se a minha decisão de mudança de vida deu certo?

– No final do processo, quando descobrirmos o que aconteceu com a nossa decisão.

– Mas, isso quer dizer que eu talvez faça algo ineficiente?

– Sim, é possível.

– E vou ter perdido o meu tempo?

– Bom, mais ou menos, porque…

– Não! Então é melhor não tomar nenhuma decisão e esperar!

E, portanto, não tomamos decisão nenhuma. Não começamos a cena que poderia ser um épico (ou um fracasso retumbante), não iniciamos aquela dieta (que poderia causar um efeito sanfona), não ligamos para aquela pessoa (que poderia te dar um fora, ou pior: ser um relacionamento estável!) e ficamos a espera da melhor opção, entre todas as outras opções do mundo, que vai bater na porta logo mais. Só mais um pouco. Só mais um pouquinho.

Errar é aprender. E, nesta coluna, falaremos sobre os benefícios dos nossos erros.

É, eu sei. Por melhor que seja o seu uso por nós, a palavra ERRO  carrega tantas coisas negativas e depreciativas. Culpa de nossa educação, que tanto aposta que qualquer pessoa aprenderá pelos seus ACERTOS (ah, essa palavra é bonita, limpa, organizada, hermética, branca, com uma pontinha de uma suástica aparecendo ali, debaixo da  letra “erre”).

Querido leitor, erre comigo! Afinal, este verbo em português também significa viajar!  Então sejamos errantes digitais e estejamos dispostos a escolher caminhos e aprender com eles. É improvisando assim, nos palcos e na nossa vida, que teremos histórias pra contar.