– Olá, seja muito bem-vindo.

Disse o simpático doutor quando cheguei no consultório. Eu vi nos olhos dele, naqueles olhos castanhos atrás do óculos redondo, que ele tinha informações horríveis para me passar. Sentei na cadeira em frente a mesa, cheia de prontuários e pequenas maquetes de pedaços do corpo humano, como quem espera uma sentença de morte.

– Então, senhor Miguel, como esta se sentindo?

Que médico é esse? Ele olha na minha cara, sabendo da minha condição precária, e ainda assim começa a nossa conversa perguntando como estou me sentindo? Existe algum nível de sadismo intrínseco nesta profissão. Respiro. Respondo que estou bem, na medida do possível. Não falo mais do que isso, até pra não dar muitas pistas da minha verdadeira situação. Quero ver o quanto este Sherlock Holmes consegue deduzir sobre mim.

– Como está o seu sono e a sua alimentação?

É tortura? Ficar fazendo perguntinhas estúpidas, quando eu vim aqui para saber do pior? Malditos médicos, com seus jogos de poder, abusando da nossa boa vontade, quebrando a nossa esperança. Respondo, fugindo de qualquer coisa que dê indicações extras de problemas de saúde. Durmo bem, como bem, está tudo ótimo.

– Alguma constipação?

Por que você tá me perguntando especificamente isso? É no intestino? Eu tenho problemas no intestino? É câncer? Eu sei que pode ser câncer, várias pessoas no meu condomínio tiveram câncer. Nem sempre os moradores em si, às vezes pessoas da família ou amigos, mas da última vez que mencionei câncer numa reunião do prédio um monte de gente falou disso e, tenho certeza, a dona Marize do 302 tinha uma sobrinha que teve câncer de intestino. Eu só penso isso, é claro. Não falo tudo isso pro médico, até porque ele faz a pergunta enquanto vê algo nos meus exames, sem olhar pro meu rosto. Então – penso eu – deve ser só uma dessas perguntas de praxe. Digo que vou ao banheiro de manhã e no fim do dia. Ele sorri, em aprovação. Ufa, não é no intestino. Um órgão a menos!

– No seu dia a dia, como está lidando com o estresse?

Eu devo ter feito uma cara de abismado nessa hora. Como eu lido com estresse? O senhor já deve saber, tá fazendo um teste de estresse comigo há alguns minutos, agora. Olha na minha cara e você sabe como lido com estresse. A não ser… É um problema no meu sistema nervoso? Ou é coração? Porque eu senti uma dor no cotovelo e jurei que pudesse ser um ataque cardíaco. É isso? É isso? Antes de falar alguma coisa, ele completa a frase.

– … porque seus exames de sangue e sua pressão estão ótimas..

Que sádico! Coloca o paciente sob estresse, perguntando do estresse, para ver como eu me saio. Que profissão de pessoas nojentas, uma apreço pela dor do outro.

– A única coisa que saiu alterada, nessa bateria bem completa de exames que o senhor fez, foi…

Uma pausa? Esse monstro tá fazendo uma pausa justamente neste instante? Ele esta preste a declarar a razão da minha morte e ele dá uma paradinha antes de dizer o que é, só pra me ver suar? Cadê as câmeras desta pegadinha? Me conta onde estão. Você vai levar esta gravação para assistir, junto com seus amigos médicos, e dar risada da minha cara enquanto fumam charutos e bebem martínis.

– … aqui, no seu exame de fígado.

Hepatite, claro! Eu sabia! Eu sabia que tinha algo errado, tinha me doído o fígado neste último mês inteiro.

– O senhor bebe?

Nunca! Não bebo, não fumo, e faço um pouquinho de exercício. Umas caminhadas dentro do escritório. Ando o dia inteiro. Quer dizer. Veja bem. Tá bom, sei que sou sedentário, é que a vida é sempre tão cheia de compromissos. É por isso que vou morrer tão cedo? Porque nunca tive vontade de ficar como um rato de laboratório numa esteira? Tantas promessas de ano novo quebradas. Se eu tivesse caminhado na praia, todos os dias, depois daquele réveillon na Praia Grande, talvez eu fosse um homem saudável, malhado, pronto pra curtir uma vida intensa. Mas agora… A hepatite chegou pra me levar embora.

– Bom, como o senhor não bebe, chego a conclusão que esta na hora de diminuir essa quantidade absurda de remédios que o senhor toma.

Não entendi. Mesmo.

– O senhor toma remédios o tempo todo, para qualquer suspeita de sintoma que tenha, não?

Qual é o problema da pessoa querer se cuidar?

– Daqui pra frente, chega de remédios. O senhor é jovem, ainda, tem uma condição de saúde estável, poderia estar mais ativo fisicamente…

Amanhã eu caminho no parque! Na academia no final da rua, que tem aquele outdoor com o cara musculoso e a garota com maio enterrado no bumbum. Prometo!

– Vou receitar pro senhor apenas um fitoterápico…

Que é um remédio que não é remédio! Esses malditos sádicos, dando esperanças vãs em cápsulas para as pessoas!

– …e vamos monitorar a recuperação do seu fígado…

Testes semanais? Controle diário? Uma sonda?

– …fazendo um exame daqui seis meses.

Seis meses de tortura, seis meses de incógnita. Malditos médicos sádicos!

– Alguma dúvida, senhor Miguel?

Molho os lábios antes de perguntar, até pra não xingar esse carrasco maldito. Digo apenas: quer dizer que eu não estou morrendo?

– Claro que não, senhor Miguel! Pelo contrário. O senhor tem que parar de se preocupar tanto e aproveitar a vida. Bom,…

Uma pausa? Será que há alguma coisa a mais que ele não me falou?

– Sempre temos que lembrar que, depois que nascemos, todos nós um dia vamos morrer. Inclusive eu e o senhor.

Eu sabia!