foto original por Duda Bairros

 

É sempre bom ter assunto. Ninguém planeja que, no futuro, você será aquele sujeito quietão no final da mesa, sem nada pra falar. Sabe? Aquele que, quando raramente fala, manda aquela piada internética que todo mundo já recebeu mais de uma vez, ou solta "aquela" história que, quando acaba, todo mundo meio que se olha com aquela cara, perguntando internamente: acabou?

Sempre achei que esta era a necessidade básica de futebol na vida das criaturas que não querem estar isoladas da sociedade. Com futebol, todos os comentários podem ser interessantes: a repetição exaustiva da contratação & venda de jogadores, os lances da semana passada, os lances históricos, os escândalos financeiros, desde o jogo de várzea ao jogo com amigos ao brasileirão ao internacionalzão. O cara pode não ter nada pra falar, mas é só ele ler um artigo na Placar, pegar meio comentário na rádio do Juca Kfouri, ligar a televisão no domingo a noite e ele estará coberto de assuntos pela semana.

Deu silêncio? É fácil! Você nem precisa estar atualizado no esporte. É só mandar uma dessas aqui:

– Se acredita? Desmanchar o time assim, no meio do campeonato.

– Aquele técnico… (é só fazer essa frase com alguma careta que alguém ao seu redor vai completar com "é maravilhoso" ou "é uma merda" e cuidará do assunto)

– Tem juiz que… vou te contar!

– Dirigente não sabe nada de futebol.

– Ricardo Teixeira é um grande _________ (complete com o que você quiser – se for dentro da FIFA ou CBF, complete com elogios)

– E o Galvão Bueno, heim?

Esta última é infalível Sabe porquê? Porque o brasileiro adora odiar o Galvão. Este sim é o verdadeiro esporte nacional.

O cara talvez nem seja tão ruim assim, vai. Neste ponto vai me faltar a experiência de ter ficado domingos seguidos em sua companhia, seja nos jogos de futebol, seja nas emocionantes corridas de fórmula um (qualquer um teria problema para encher duas horas de autorama com assunto). Mas não preciso da comparação com outros profissionais da área, porque sei que ele me lembra. Sabe aquele seu tio, maluco por futebol, que vai falando e exagerando tudo, cuspindo umas informações lidas aqui e ali, e acha que tá super certo? Todos os jogos tá lá ele: Tio Galvão.  

Talvez por isso seja tão fácil xingá-lo e voltar a assistir no próximo domingo: ele é da família!

Você, pessoa quieta de plantão, sabe o quanto o Galvão salvou o seu pêlo. Afinal de contas, no dia seguinte no escritório, você só precisa lançar a frase inesgotável:

– E o Galvão Bueno, heim?

…e todos terão essa sensação de partilha universal, de que dividem com você esta opinião e que, portanto, você é um deles. Não importa qual seja o seu defeito social, na hora que você jogar a pedra no Galvão – ele é bom de apanhar, ele é bom de cuspir – você estará aceito.

Use esta tática do inimigo comum, algo de praxe em governos pseudo-democráticos para forçar uma aceitação que, de outro jeito, eles não teriam. Assim como o Batman precisa do Coringa, que o Bush precisava do Osama, nós precisamos da salvação oferecida pelo narrador do tetra, do penta, do que mais vier, o tio Galvão Bueno.

Galvão: linka eu!

Aquele abraço