Como esta coluna aborda o erro como forma de aprendizado, nada mais fácil que falar dos meus erros e de como eles me ensinaram coisas importantes. Leitor, sinta-se livre a xingar o uso excessivo de “eu”, mesmo nas frases de sujeito oculto, como esta que vem a seguir.

Abro a porta, devagar. Meu cérebro ferve pensando na desculpa perfeita, para deixar claro que não é minha culpa chegar em casa só agora. Tenho que tomar cuidado nos detalhes. Será que a porta vai ranger? Eu deveria ter cuidado disso da primeira vez que ela reclamou que a porta rangia. Se ranger, ela vai reclamar do horário, da porta, do desleixo masculino – quase lugar-comum nas reclamações – e vai estar mais atenta a qualquer deslize na minha história. Tenho que tomar cuidado nos detalhes. 

Não que eu tenha feito alguma coisa, simplesmente fiquei conversando com os amigos e esqueci o horário. Apenas esqueci de ligar avisando que chegaria atrasado. De novo. Talvez a terceira vez esta semana? Afinal, não há razão para ela ficar chateada (ou há? Talvez dependa de quem lê este texto). Mas, mesmo assim, na minha imaginação, vejo uma fera atrás da porta, com seus sentidos aguçados de predadora carnívora, aflorados pelo cheiro de medo que exalo.

Relacionamento amoroso é tema mais que recorrente em improvisações. Simplesmente porque, tanto na vida quanto no palco, tudo pode dar errado. A começar por começar. Existe uma eterna dúvida sobre se esta/este é a sua cara metade, seu par perfeito, seu príncipe encantado ou sua coelhinha da playboy (cada um com a sua fantasia, e todas bem conturbadas). O relacionamento amoroso é constituído de duas pessoas que desejam provar que o conceito físico de “dois corpos não podem compartilhar, ao mesmo tempo, o mesmo espaço” não foi colocado a prova pela turma quântica, mas por Adão e Eva.

O que pode dar errado? Tudo.

Será que é necessário fazer a lista dos clichês? Não, me recuso. Desculpas ao leitor de menos de quatro anos de idade que ainda não entende disso, mas não falarei de todas as maravilhosas idiossincrasias (massa, consegui colocar essa palavra num texto!) que podem existir entre um homem e uma mulher, um homem e um homem, um mulher e uma mulher, um ser humano e um cachorro, qualquer relação com mais de uma pessoa em que o raciocínio possa ser embotado pelo afeto. Porque são muitas, e todas elas estragadas pelo stand-up universitário que assola o país (um fenômeno tão grave quanto o sertanejo universitário, o pagode universitário, e o universitário-universitário – este último um dos piores).

Então… Por quê?

Se há tanto espaço para que dê errado, e estão aí as taxas crescentes de divórcio que não me deixam mentir, por que é que pessoas de todos os credos, classes sociais e formações acadêmicas estão diariamente tentando achar a melhor maneira de não estarem mais sozinhas? Em termos simplistas: porque é realmente maravilhoso! Você é convidado a testemunhar a vida de uma pessoa que você ama, gosta, admira, tem carinho, tem respeito, de quem você é fã. E essa pessoa, de quem você gosta tanto, é a principal biógrafa da sua vida. Quando você olha nos olhos dela, você vê o olhar de quem sabe o que se passa com você, mesmo sem dizer uma palavra. Você se sente especial de identificar que aquele cheiro só pertence a essa pessoa – mesmo que seja um cheiro ruim, por mais pateticamente apaixonado que isso possa soar (ou suar, dependendo de qual seja o seu cheiro preferido).

E por que improvisar sobre isso, no palco?

Como contadores de história, estamos sempre buscando dois opostos: a ligação com a realidade e a surpresa do inesperado. O primeiro é para que a plateia se identifique com o que vê, saiba que é ela que narcisisticamente está refletida no palco, que aquilo está acontecendo “de verdade”. Mas ninguém assiste o BBB durante a madrugada, quando as pessoas estão dormindo, e nem quando o Bial se acha o poeta da tevê aberta. É no inesperado que você ganha o interesse da plateia, que o público fica curioso de saber o próximo passo. Nada combina melhor o “de verdade” com o inesperado que um relacionamento amoroso.

Fora que histórias de amor ganham torcida organizada. O público, sem querer, começa a torcer para o momento em que a mocinha e o mocinho vão ficar juntos. Ou sofrer, porque entendem quem são os dois, gostam dos dois, mas sabem que eles não poderão mais ficar juntos. No “Pequeno Manual de Como Fazer o Público Enlouquecer”, escrito por Willian Shakespeare em 1604, a principal regra é: escreva uma história de amor sem igual, de duas pessoas que não possam viver uma sem a outra; então mate uma delas e deixe o público se deliciar com o resultado disso na sua contraparte. O suprassumo dessa regra foi usado em “Romeu & Julieta”, é claro, onde o bardo inglês achou o truque perfeito para que víssemos o resultado disso em ambos os namorados.

Fora os crimes passionais. Fora o ciúme. Fora a inveja. Fora todos os muitos detalhes que envolvem o amor dentro e fora do palco e a enormidade de erros que podem nos forçar a cometer. O relacionamento amoroso é um dos mais deliciosos erros que podemos cometer. Aliás, falando em erro…

Abro a porta. Pé ante pé. Faço silêncio e aguardo. Nada. Silêncio, escuro, nada ligado. Acho estranho, fecho a porta e imediatamente ligo a luz e a tevê. Nada, nenhum movimento. De repente, escuto um barulho no corredor, atrás da porta. Corro e sento no sofá, com uma cara levemente entediada. Ela abre a porta e diz:

– Oi amor. Desculpa, demorei? Queria te ligar, mas o celular tava sem bateria. Como foi o seu dia?

Respondo, peço um beijo, ela vai pra cozinha buscar um copo d’água. Faço uma nota mental de que devo parar de sofrer por antecipação. Mas isso é assunto para uma próxima coluna.

P.S. 1 – Este texto só foi possível porque sou um desses loucos que deu sorte e achou a maluca perfeita para dividir essa vida comigo.

P.S. 2 – O livro “Pequeno Manual de Como Fazer o Público Enlouquecer” é uma licença poética. Por favor, não perturbe nenhum livreiro do mundo procurando por uma cópia deste livro.