Quando eu criança, eu tinha uma amiga invisível. Mas ela não brincava comigo, ela não assistia tevê e comentava coisas, ela não me socorria quando eu brigava com alguém e ficava sozinho. Ela era extra especial. Chamava-se Silvia, era baixinha, tinha cabelos presos num coque, usava sempre uma roupa preta. Ela surgia repentinamente, em uma forma de teletransporte, todas as vezes que eu ia no banheiro. Todas as vezes que eu ia no banheiro fora de casa eu sempre imaginava que, desta vez, ela não iria me achar. Mas ela sempre me encontrava, não importa onde eu estivesse no mundo. Super Silvia.

A coisa se aprofunda. Ela não era exatamente minha amiga, era mais uma espécie de secretária. E todos esses banheiros acabavam tendo, escondido, aparelhagem eletrônica (computadores com internet, em 1984?!) com a qual eu via se tudo estava certo no mundo, porque manter as coisas no caminho eram minha responsabilidade. Isso mesmo, senhoras e senhores, para análise freudiana de qualquer pessoa, aí está uma confissão de um bem-elaborado complexo de Deus infantil.

Mas a coisa se aprofunda! Além de tudo isso, para resolver os problemas em diversas partes do globo terrestre, como eu não podia ir pessoalmente (porque estava fazendo número 2 na casa da minha vó, no interior do Paraná), eu mandava clones meus – que eram perfeitos – para resolver todas as questões. E quando um clone não era suficiente, eu mandava vários. Assim, todos os problemas poderiam ser resolvidos por aqueles que eram minha imagem e semelhança.

– Santa distorção de metáforas católicas numa criança, Batman!

Essa complexa fantasia infantil serviu de exemplo para entender boa parte dos problemas do mundo. Sendo pelo narcisismo que conquistamos em nossas experiências pessoais, através da idade, da educação acadêmica, nas viagens para algum lugar distante, sempre tomamos como medida de resposta nós mesmos. O que faríamos. Como teríamos lidado com a situação. Quão prontamente reagiríamos a alguma ação.

Porque, conosco, sempre seria diferente.

E melhor, né? Afinal, quem melhor que eu mesmo para resolver uma situação hipotética que aconteceu dentro da minha cabeça?

Esse comportamento egocêntrico é fatal no universo da improvisação, porque participamos de um dos eventos em que você teria que ter, dinamicamente, muita disponibilidade de ouvir e respeitar uma resposta diversa à sua, a qualquer momento. Você começa uma cena, percebe que ela poderia ir numa direção, você acha que ela vai pra lá e o outro improvisador inverte a sua expectativa. A cada segundo que você perde achando que o outro esta errado, ou projetando como teria sido o futuro, caso a ação fosse como você pensou que seria, é um gasto inútil de energia.

Antes de ser um pensamento de improvisação, é um pensamento budista: “O Segredo da saúde, mental e corporal, estão em não se lamentar pelo passado, não se preocupar com o futuro, nem se adiantar aos problemas, mas viver sábia e seriamente o presente.”

Perde-se muito tempo com ego, especialmente quando temos que lidar com o dos outros. Quando Quincy Jones gravou We Are the World, ele deixou um pôster na porta que dizia: Deixe o seu ego para o lado de fora. Isso quem conta é Ray Charles, que diz ter visto isso com seus próprios olhos. Pessoas que lindam com artistas sabem que eles podem ser um pouco focados em seus próprios problemas, mas numa noite em que todas as celebridades da música pop dos anos 80 estariam juntas, sob o mesmo teto, simplesmente não daria tempo de atender essas demandas.

Isso tudo pra dizer aquilo que você já sabia: ego toma tempo, e não trás nenhum benefício.

É um pensamento que serve a quem esta dentro, e muito para quem esta de fora. Ao ficar na posição de observador de improvisações, quem assiste perde muito tempo viajando num mundo de fantasia em que ele(a) teria uma resposta perfeita naquele momento, conseguiria uma risada mais alta se tivesse feito isso, alcançaria outro nível de profundidade de personagem se ele(a) tivesse feito. Em vez de observar o que realmente importa: olhar como a pessoa reage, sacar por onde passou a cabeça dela para usar uma resposta, entender o que esta acontece de verdade naquele momento.

Acho até mais grave quando esse tipo de doença começa a afetar quem esta encarregado de dirigir um trabalho de improviso. Se o diretor começa a ver os atores como instrumentos de realização das fantasias mais íntimas do seu ego, a quantidade de conflitos insolúveis começa a formar pilhas ao redor da sala de ensaio/palco/set de filmagens.

Portanto, caro improvisador, não importa se você começou no tempo que Keith Johnstone usava fraudas ou ontem, você precisa entender que o mundo da improvisação não se baseia em você. Quanto antes você aceitar isso, melhor. Inclusive quando for monólogo, porque, nesse caso, se baseia ainda na sua relação com os técnicos e com a plateia.

E, o quanto antes você entender essa regra para fora do palco, melhor para a sua vida pessoal.

PS 01 – Ah, só terminando a minha história pessoal. Quando eu cresci mais um pouco e comecei a ver que aquilo tudo era uma bobagem (secretária mágica, banheiros tecnológicos e clones perfeitos), ainda assim fiquei um bom tempo pirando nessa brincadeira, mas comecei a usar assuntos reais de calamidades internacionais nesses papos. Ao crescer mais um pouquinho e decidir parar de vez com a brincadeira, oficialmente demiti Silvia, e ela foi embora feliz. Acho que ela ainda me ajuda a contar histórias.

PS 02 – Caso um dia eu me torne crossdresser, que nem o Laerte, vocês já sabem qual será o meu nome de guerra.