Umas semanas atrás, quando fui para São Paulo fazer uma apresentação do Improvável, passei pela experiência de pegar metrô na Sé às 18h30. Com mala de viagem. Foi até engraçado contar isso mais tarde pela careta que todos faziam. Ou seja, compartilhamos a consciência de que colocamos nossos cidadãos em situações miseráveis. Todos os dias.

Pra quem não conhece o metrô em São Paulo, eu preciso explicar que quando chega na estação Sé, o metro abre as portas de ambos os lados. Do lado esquerdo ele abre pra sair – ou seja, quem tá dentro só sai por aí – e do lado direito abre para embarque. Do lado direito do metrô ficam camadas e mais camadas e pessoas que se empurram, a cada chegada de um novo transporte, na esperança de voltar logo pra casa (lembrando pra você, que não conhece, a Sé é no centro de São Paulo e, provavelmente, este é apenas o início da jornada de retorno).

Reparei que um certo fenômeno acontece: do lado esquerdo, no desembarque, alguns “espertos” ficam lá, para embarcar, cientes que o embarque é do outro lado, mas descobriram essa maneira de furar a fila. E os demais passageiros, ensardinhados de tanta gente, não reclamam veementemente, não apontam, não chamam alguém do metrô pra resolver isso.

Agora é teoria minha, pois não tenho provas. Mas acho que muitas pessoas, em vez de acharem ruim que alguns bancam os “espertos”, pensam: preciso me lembrar de fazer isso na próxima vez. Porque eu não quero melhorar a situação pra todos. Eu quero ser um dos “espertos”.

E são esses mesmos “espertos” que se aproveitam que você não reclama, que você não gosta de política, que você não quer saber dessa bagunça toda, para estarem lá e bagunçarem a vida da gente. Porque pra eles não interessa melhorar as coisas do lado do embarque, apenas ter um belo privilégio enquanto você se dana.

Reclamar é preciso, vigiar é preciso. Porque, em médio/longo prazo, poderá fazer muita diferença no país que queremos pra nós.