Todos os dias, o guarda do museu de guerra acorda muito cedo. Ele sempre acorda durante o horário sem sol, não importa se o país está economizando energia ou não. O ritual sagrado de todos os dias é se arrumar, com a pressa de quem teme perder o pequeno emprego, e rumar para o trabalho. São três ônibus, nenhum que seja uma troca em terminal, porque o pessoal que organiza as rotas de ônibus nunca pensou que alguém daquela região fosse ao museu.

Ele chega no trabalho, coloca o uniforme, e se posta ao lado das relíquias e do pôster. As relíquias em questão são pedaços de armas usadas, balas, baionetas, um rifle imaculado, espadas, uma bandeira queimada parcialmente, um estilhaço que dizem matou uma figura que ganhou nome e sobrenome nos livros de história. O pôster é um evento a parte. O guarda não sabe o que está escrito nele e não porque não saiba ler, mas porque o teme desde o primeiro dia.

Estava sentado, ao lado do pôster, onde fica uma cadeira de madeira betumada dura e toda rústica- "para melhor ornar com o resto da coleção", dizia o diretor – quando uma senhora de cabelos brancos parou, com o marido, em frente ao pôster. O guarda primeiro fingiu que não viu. Era um dos seus primeiros dias de trabalho e não conseguiria fingir que sabia alguma coisa sobre a coleção. Mas reparou quando a mulher foi ficando vermelha, sua mão procurava o lenço na bolsa sem retirar os olhos do pôster. O marido, um desses senhores que parecem ter o corpo e o caráter esculpidos quando jovem, vertia lágrimas copiosas, com um leve tremor na expressão da face. Eles saíram desolados. O guarda acompanhou os dois e, quando ia voltar seus olhos para o escrito, um jovem desajeitado estava lendo entre uma mascada e outra. O guarda voltou sua atenção ao garoto que terminou de ler, baixou a cabeça, e começou a chorar baixinho até escorrer um ranho cristalino, limpo pela manga cumprida da jaqueta jeans.

Todos os dias, quando alguém para de frente ao pôster, chora. Mansinho, com soluços, só avermelhando os olhos. O guarda já se tornou craque em ver quem são os "machos" que fingem não chorarem e vão ao banheiro apressados. Excursões inteiras param e choram. Por isso, o guarda teme o pôster.

Nunca teve coragem de ler as informações terríveis que certamente estavam lá. No caminho para casa, passando pelas ruas escuras com a eterna promessa de receberem saneamento básico na próxima eleição, ele lembra de uma ou duas palavras do pôster que ele viu de relance, sem querer, enquanto vigiava a sala. Deixa uma lágrima escorrer e pensa nos ônibus pra pegar no dia seguinte.