De manhã, como você, ele abre os olhos. Verifica se as melecas uniram as pálpebras durante a noite. Então ele pensa:

 

Respiração ok. Visão ok. Quarto semi iluminado – porque a cortina não tem blackout – ok. Corpo vestido com camiseta velha ok. Lençol no chão ok. Travesseiro babado ok. Levantar. Levantar. Levantar…Vai, levanta!

 

Levantar ok.

 

Mais um dia começou.

 

O rádio-despertador conta como vai ser o dia: trânsito, política, fofoca, cultura. O rádio sabe de tantas coisas. As pessoas do rádio acordam muito antes do que ele. Bom, as pessoas do rádio acordam. Ponto. Eu não. Escovo os dentes dormindo. Vou trabalhar dormindo. Volto pra casa dormindo. Ninguém me acorda, sabem do perigo que é acordar um sonâmbulo.

 

Hoje de café tem café. Só café. Café é bom pro coração, o rádio disse. Dane-se o estômago, o intestino, o fígado e aqueles outros lá que fazem coisas que a gente só lembra quando alguém nos diz: minha tinha tá com câncer no pâncreas. "Nossa! No pâncreas? Credo, né?" e ficamos naquela vergonha de perguntar o que vai acontecer se a pessoa não tiver mais pâncreas. "Tá com problema na vesícula biliar? Meu deus do céu!"

 

Hora de ir trabalhar.

 

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Hora do cafezinho. Café faz bem, coração.

 

 

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O almoço é rápido. O almoço é o prelúdio do cafezinho.

 

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Volto pra casa. O dia vai acabar daqui a pouco. Tudo uma droga. Menos o meu coração, meu coração tá ótimo. Será que janto? Vem uma paródia do Roberto Carlos: se comi ou não comi, o importante é que emoções eu senti! Será que algum vizinho escutou? Fico quieto para saber se alguns comentários saem da boca deles, passam por debaixo da porta e chegam no meu ouvido. Nada. Nada. Espera! Ah, nada, só uma porta batendo com o vento.

 

Então, tudo pronto? A camiseta velha vai ser a mesma. A baba do travesseiro tá seca. Do blackout só vou dar falta com o sol. A pergunta periclitante é: junto o lençol ou não? Vai voltar pro mesmo lugar, amanhã de manhã. No mesmo chão. Só junto porque tenho medo que, no dia que não der pra jogar o lençol no chão, pode ir o travesseiro. Daí deixa o travesseiro por lá, daí vai o cobertor. Acabo dormindo no chão e deixando todas as coisas na cama. Que louco! Será que, se eu dormir no chão, acordo com o lençol em cima de mim? Fico com medo de testar e dar certo.

 

Chega. Deitar ok. Esticar ok. Manter as pernas esticadas pra esquentar com a coberta agora ok. Apagar a luz ok. Parar de pensar. Parar de pensar. Parar. Parar. Pára. Pronto, parei. Quase. Quase. Só mais um pouquinho e

 

acordo.