Rasgos da manhã marcam as paredes pichadas e envelhecidas do pequeno prédio carioca. O professor de música, com o violão ensacado junto com o pandeiro, dá as costas para a rua ao trancar a porta do edifício de apartamentos.
– Poucos fazem isso, e comprometem a nossa segurança – ele pensou devagar, enquanto dava adeus por detrás dos óculos para um chaveiro de posto de gasolina, colocando a chave no bolso direito da calça. Deu um passo em direção ao ponto de ônibus, antes de perceber uma companhia ao seu lado direito.
– Você é professor de música, né?
O garoto, com sorriso no rosto, olhava pro violão e pro professor, que assentia com a cabeça.
– Bacana. Tem um pandeiro aí, também, né? Mas ‘cê não parece sambista.
O professor encarava aquela descrença com naturalidade. Seu tipo físico era mais identificado com o de um gaúcho caído do caminhão de mudança do que de um sambista carioca. Mas era do samba, no samba se criou, no samba se casou, do samba se cansou, do samba e da ex-mulher se libertou e, com certo arrependimento, nas aulas de samba seu sustento achou.

– Essa sua cara também não é estranha. Não vi na tevê, ontem?
Nunca havia feito um samba que fizesse sucesso, mesmo nas rodas dos amigos. Tudo muito quadrado, com falta de algo. De uma coisa. Um trocinho. Mas era uma discoteca mental ambulante. Alguém perguntava "como é mesmo o samba daquela escola que ganhou em 95", e lá ia o professor tocando. "Aquela, daquele sambista, que era assim" e ele tirava a música da cabeça da pessoa direto pro instrumento, fosse violão, cavaquinho, pandeiro, caixinha de fósforo ou até pro gogó. De tanto o pessoal falar do professor, ele ganhou uma alegria: era jurado dos Desfiles das Escolas de Samba do Grupo Especial do Rio. Tinha camarote! Tinha crachá! Tinha uma foto que ficava pendurada, na Globo, durante quase 2 minutos! Em casa, com discrição, ficava rezando pro mestre de cerimônias se atrapalhar entre as notas de um dia pro outro, só pra aumentar o tempo da foto na telinha.
– Viu sim. Na apuração.
– Que legal, é você mesmo! Ô desgraça, falei que era ele!
Outro jovem apareceu sorrindo, do outro lado do professor. Já ia ele com uma legião de fãs, pensou. A felicidade simples, do começo da manhã, fez pular uma nota que acordou algo. Uma coisa. Um trocinho.
– Sabe, cara, por causa da sua nota a minha escola caiu. E olhando pra essa cara, dá pra ter certeza que ‘cê não entende nada de samba.
Um tiro. O som, perfeito. Uma mancha de sangue manchada por rasgos de sol. Um samba que contaria a trágica história de um professor de música que nunca conseguiu fazer uma canção "sambar" direito nasceu naquele instante.
E morreu.