acorde, acorde, acorde, acorDE, acORDE, aCORDE… A C O R D E!

 

Acordo.

 

É tarde, nem sei que horas. O relógio do lado da cama está com a pilha fraca e, de vingança, adianta ou atrasa o marcar das horas. Não confio, não olho. Do lado de fora, é noite. E basta.

 

A camiseta está suada, apesar do frio. Foi um sonho ruim, penso. Calço chinelos que não são do tamanho dos meus pés. Vou tomar água. Nem sei se tenho sede ou se apenas imito um gesto tantas vezes visto em filmes. Acho que é apenas uma desculpa para você verificar se algum pesadelo ainda está pela casa, mas isso poderia soar paranóico. Ou não. Ou sim?

 

Lembro de uma sala de uma casa normal, vários amigos que não eram meus amigos. Deve ser uma turma do meu subconsciente, ou de amigos que o meu consciente hoje diz "acho melhor não" e apagou do rardidraive. Mas era uma sala, com pessoas, um papo sem palavras claras, sorrisos. Daí de repente uma reviravolta e estou na rua, correndo. Não sei porque, mas corro. Tento correr. O chão não me dá atrito, por isso me esforço muito para quase não sair do lugar. Aí acordo. Bastante assustado.

 

Estou puto, pra falar a verdade. E tenho os meus motivos.

 

O primeiro é meio ridículo, confesso. Tenho vergonha de estar assustado simplesmente pelo fato de que não conseguia correr nos sonhos. Deprimente. Se algum amigo tivesse visto aquilo iria gozar da minha cara pra sempre. Não era ladrão, não era monstro, não era aquela professora horrorosa de Sociologia na cama com você. Era simplesmente você correndo e não saindo do lugar.

 

Mas este próximo motivo é mais legítimo. Sempre que posso leio histórias, das mais incríveis. Adoro as coisas do Neil Gaiman, já viajei com Lewis Carroll, conheci o Senhor dos Anéis antes do Peter Jackson transformar em filme, tenho uma coleção de gibis com muitas histórias incríveis de mundos inconcebíveis, aventuras épicas, relíquias sagradas, guerras contra nazistas, contos de fadas, príncipes e princesas, reis, rainhas, sultões com haréns de mil amantes, mulheres com corpos impossíveis até para o Photoshop, mutantes com poderes de deuses inseridos na nossa sociedade, nerds (como eu) que alçam vôos depois de uma longa batalha, de um ritual de passagem final. Vi os filmes, li os livros, fui nas peças, e tudo mais que você possa fazer pra atiçar a imaginação.

 

E sonho com uma sala. Normal. Ridiculamente normal.

 

Não é de ficar puto?