Uma tevê pisca sobre um sofá e um senhor, de mais de 60 anos. A tevê esta baixa e o senhor, de nome Fernando, não parece nada feliz com o que vê nela. Uma mulher jovem entra na sala.

 

Fernando – Nossa, que barbaridade! Quanta nojeira!

Mulher – O que foi, seu Fernando?

Fernando – Esse mundo, virado do avesso. Cheio desses baderneiros.

Mulher – Verdade. Esta difícil.

Fernando – E toda essa violência, esses assaltos. Um caos completo.

Mulher – Tomara que alguma coisa mude. E logo.

Fernando – Seria necessário voltar no tempo!

Mulher – Não entendi.

Fernando – A gente volta no tempo, para quando a vida era mais simples.

Mulher – O senhor diz… com menos tecnologia?

Fernando – Não, não. Um tempo onde a vida era boa, calma, sem bagunça. Bom mesmo era no tempo da ditadura.

Mulher – Você não pode estar falando a sério…

 

Uma porta no fundo é arrombada. Entram quatro homens com aparatos paramilitares.

 

Mulher – Ei! Vocês não podem entrar aqui. Isso é…

 

Um dos homens golpeia o rosto da mulher, que cai desacordada. Fernando se levanta.

 

Fernando – Que balbúrdia é essa?

 

Os quatro homens param, tiram seus capacetes e olham Fernando com respeito.

 

Sargento – Senhor Fernando. A nossa corporação tem muito a agradecer ao senhor, nesta data comemorativa.

Fernando – Eu… Não entendo o que…

Sargento – Durante anos nós esperamos, a margem da sociedade, que um número certo de brasileiros apoiassem a volta dos tempos da ditadura. Foram anos difíceis, perdemos alguns integrantes que não conseguiram manter a esperança. Mas hoje, graças ao senhor, atingimos o número certo!

Fernando – Mas eu…

Sargento – O senhor é um herói! Pois só nos faltava isso: mais um único cidadão de bem que quisesse a nossa volta. Muito obrigado por tudo. Infelizmente, temos que ir.

Fernando – Mas e a menina que vocês…

Sargento – Apenas uma incontingência da nossa batalha. Soldado, leve essa subversiva daqui.

 

O homem arrasta a mulher para fora da sala, pela porta arrombada.

 

Sargento – Muito obrigado. E lembre-se: é graças a cidadãos de bem, como o senhor, que podemos voltar a atuar hoje em dia.

 

Os soldados começam a colocar o capacete.

 

Fernando – Mas… Era uma força de expressão… Eu não…

 

Os soldados terminam de colocar os capacetes e o sargento chega bem próximo a Fernando.

 

Sargento – Desculpe, eu não entendi. O senhor mudou de ideia? O senhor esta pensando diferente?

Fernando – …não.

Sargento – Não, SENHOR!

Fernando – Não… senhor.

Sargento – Não, SENHOR! E sem hesitar, senão você vai acompanhar a sua amiguinha até a base.

Fernando – NÃO, SENHOR!

Sargento – Estamos entendidos?

Fernando – Sim, SENHOR!

Sargento – É bom mesmo.

 

Eles saem. Fernando, sozinho, chora.