Eu tenho problemas com stand up. Acho que, na sua origem, é uma forma de arte sensacional, em que uma pessoa esta com pouquíssimos aparatos cênicos perante um grande público e tem que enfrentá-lo somente com sua habilidade pessoal, as piadas que você escreveu – ou que outra pessoa escreveu pra você, e sobreviver a isso. Mas, na realidade, virou um espaço onde há repetição de fórmulas, perpetuação de racismo e clichés.

Sim, é igual a todas as formas de arte, se você pensar bem. Só que, por ser executado por um artista, fica mais evidente que este comediante tomou a escolha de falar desse jeito, de fazer essa piada, de usar seu tempo embaixo do foco de atenção social para falar “isso”.

Então me pego com um leve preconceito contra os preconceitos que aparecem em alguns shows de stand up.

Mas, já que somos sempre contradições ambulantes, eu gosto muito. Assisto muito e gosto de vários deles, em sua grande maioria gringos (eles tiveram suas primeiras gerações de stand upers há muitas décadas, então os novos estão “sobre os ombros de gigantes”) e eu tinha um ídolo. Tinha. Seu nome é Bill Cosby.

COSBY, Bill Cosby, 1996-2000, (c)Carsey-Werner Company/courtesy Everett Collection TV STILL

COSBY, Bill Cosby, 1996-2000, (c)Carsey-Werner Company/courtesy Everett Collection TV STILL

Fazer humor é fazer histórias. Criar imagens em frente ao público para que ele se relacione com você, goste de você, queira saber das suas histórias. E Bill era o maior gênio neste assunto. Seus shows eram feitos de histórias milimetricamente calculadas, muitas imagens, uma verdadeira contação de histórias da melhor qualidade. Seus “bits” levavam a gente para universos em que você via os personagens como se estivesse lá, como se pudesse sentir o cheiro dos lugares. Eu mesmo reproduzia várias das coisas dos show épicos do Sr. Cosby em várias das muitas vezes em que comecei a elogiá-lo.

Um dia chegaram as acusações de estupro. Não acreditei, claro. Era meu ídolo, o comediante que não precisava falar palavrões para te convencer que o que ele falava era engraçado. Ele era acima de tudo isso.

Mais acusações de estupro.

Mais.

Mais.

Sem perceber, eu parei de falar de Bill Cosby. Não conseguia, era muito estranho, porque tinha a sensação de propagar aquele crime pra frente. Pior: comecei a perceber que eu queria, muito, não gostar mais das piadas do antigo mestre. É como se a maldade fosse algo que você pudesse perceber, e “como foi que você nunca percebeu isso”. Já teve amigo que terminou um relacionamento e, repentinamente, ele percebe tudo de errado que aquela outra pessoa tinha, mas você tinha percebido desde o princípio?

Será que, no caso de Bill, eu era a pessoa cega de amor dentro do relacionamento?

Eu e tantos outros fãs que ainda não acreditam.

É como se você visse uma pintura, linda, ficasse encantado e fosse conversar com um funcionário do museu:

“- Nossa, que maravilha! Que técnica apurada, que beleza. Que cuidado com o desenho no espaço, eu amei este quadro. Quem é o criador dessa maravilha?

– Adolf Hitler.

-…Eu bem que percebi que as cores eram estranhas, que tem uma raiva aqui escondida no uso do preto…”

No fundo, no fundo, eu ainda gosto muito dos shows do Bill Cosby. E espero que isso não me afete, de nenhuma outra forma.