mjnewsVai, confessa pelo menos pra você mesmo. Quantas vezes você, que teve sua infância ou adolescência nos anos oitenta, se pegou com o pensamento "Ah, que saudade de escutar Thriller"? Lembre que só vale se este pensamento tenha mais de duas semanas de idade, porque depois que toda a imprensa internacional vem injetando diariamente todas as informações possíveis e impossíveis sobre a vida e morte de Michael Jackson, daí suas memórias e emoções são controladas pelo controle remoto.

 

Eu lembro de Michael do tempo do álbum BAD, porque algum tio deu de presente o LP e ia com frequência para o toca-disco amarelo, aquele que era uma valise e a parte de cima era a caixa de som. Lembra? Michael estava lá, mas junto com ele estava o Balão Mágico, os Menudos, o Trem da Alegria, o Pink Floyd -The Wall, Os Saltimbancos do Chico Buarque, alguns LPs de historinha. Para o garoto de 9 anos, mais o meu irmão de 7, todos tinham o mesmo nível de importância (e não fique revoltado, oh rocker fã do Pink Floyd, oh purista amante de Chico Buarque, oh saudosista do Balão Mágico, oh funcionário da ALL pelo Trem da Alegria).

 

Depois teve o We are the World, que eu só soube que era de co-responsabilidade dele quase dez anos depois. Foi a primeira vez que eu vi a influência da máquina americana em ação imediata, pois logo após o lançamento da campanha pela fome na Africa, começaram a pipocar genéricos por todos os cantos do planeta, inclusive no Brasil. Era algo pra salvar a Amazônia, não era? Aposto que foi uma campanha suuuuuper efetiva.

 

Depois lembro dele porque todas as vezes que ia lançar um novo clip era um furdúncio no Fantástico. A gente ficava sabendo por causa das propagandas que tinham no meio d'OS TRAPALHÕES que hoje era "o dia" do novo clip, na época que não tinha youtube pra você saber de tudo doze horas antes do que a tevê informa.

 

Dali pra frente, só soube de tristezas. A questão da troca de pele, com todas as exclamações da imprensa. Ele quer trocar de pele porque tem vergonha de ser negro! Não, é vitiligo! Não, ele inventou a doença para que as pessoas aceitem o branqueamento! Não, a condição dele é gravíssima e está enfrentando com coragem! Ele é o rei do pop e não deve satisfação a ninguém! Ele é um exemplo para a sociedade, especialmente para os jovens! Um representante de uma era! Um ícone para a comunidade negra! Um pedófilo! Um milionário falsamente acusado! Um isso! Dois aquilo! Três! Quatro! Quarenta! Quatrocentos!

 

Dentre as trilhões de notícias do falecimento do cantor, não soube (ou não presteia atenção) qual era a sua escolha religiosa, mas creio que era cristão. Pois agora que morreu todos os seus "pecados" foram deixados de lado e, mais que de repente, ele era novamente um gênio. As mesmas bocas que falaram, os mesmos jornais que imprimiram acusações seríssimas sobre a sua conduta agora entram na onda do merchandising "fale dele enquanto está quente"! Pobre Farrah Facett, escolheu o dia errado para morrer para que a mídia falasse sobre As Panteras com tom de saudade. As eleições fraudulentas do Iran e seu ditador, Mahmoud Ahmadinejad (cujo nome eu tive que buscar no Google porque eu não fazia a menor idéia de como escrevia corretamente) terão que esperar mais um pouco. Sarney pode continuar a contratar parentes porque, mesmo sem Michael, o Lula já liberou ele pra fazer o que quiser porque ele é uma pessoa especial (que é uma maneira politicamente correta bastante usada para classificar pessoas que tenham algum tipo de retardo mental).

 

O rei do pop morreu e estava nu.