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Meu querido primo Willbun C.,

Espero que esta carta encontre você bem e feliz. Como vão as crianças? Espero que todos na família continuem saudáveis e fortes e que o castelo esteja deslumbrante com as cores outonais deste fim de 2014.

Aqui, em terras tropicais, tudo vai bem e continuamos a ganhar muito dinheiro para as nossas nobres famílias. Os planos da gourmetização brasileira caminham rapidamente e, com certeza, a falsa sensação de respeito e alta classe faz com que todos eles aceitem pagar muito mais caro por qualquer coisa.

Parece que foi ontem que introduzimos o tomate seco na culinária local, lembra? Oh, que sentimos nostálgicos se abatem sobre mim de lembrar que uma simples receita pode aumentar tão drasticamente o valor deste fruto para nossos bolsos. Lembro o quanto todos ficavam ridículos pagando mais carro por pizzas que eram quase iguais as já tão batidas de marguerita. Imaginar que secamos os tomates, colocamos uma rúcula – diga-se de passagem o quanto a rúcula era barata e a quantidade em cada fatia é mínima – e pronto: tínhamos um novo produto, de alto padrão. E caro. Muito caro. Deliciosamente caro.

As novidades são tantas que nem tenho tempo de te contar. Temos novas casas de hambúrguer, aquele horroroso invento ianque, brotando por todos os lados. Pessoas pagam o valor de jantares por um hambúrguer, Willburn! É hilário! O mais engraçado é que são convencidos a comprar porções de batata, as mesmas que se comem com peixes em nossas cidades, só que convencidos que estão comendo algo além da imaginação. Li um cardápio muito ousado, que dizia vender “batatas rústicas, ao estilo londrino” e que cobrava o triplo para servir um terço do que se serve no resto do país. Um sucesso! Adotarei a ideia em nossos empreendimentos.

No campo das sobremesas é um sonho. O país passa por uma overdose de picolés mexicanos, todos feitos no interior do Paraná.  Foi só chamar de “paleteria” que todos toparam pagar muito mais pelo produto, muito parecido com o fenômeno dos iogurtes que te contei, lembra? Que cobravam absurdos, enfiavam doces extras, calda de chocolate e ainda convenciam as pessoas de que era algo saudável. Um truque admirável, com certeza. Sem falar nos velhos bolos de fubá, que ganharam três fatias de amêndoas em cima e um pouco de açúcar e são vendidos como novidade das novidades.

Desculpe falar tanto de comida. Nem pude falar dos carros gigantes que são vendidos para pessoas que vivem apenas na cidade, dos apartamentos minúsculos que tem sanca de gesso e dos papéis higiênicos perfumados. Ficam para um próximo relato dos hábitos curiosos do povo daqui.

Saudações e feliz final de ano do seu primo,

Henry H.